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30.9.04

O debate 

É hoje: às 21h da Costa Leste dos EUA, duas da manhã em Portugal, George W. Bush e John Kerry encontram-se para o primeiro (e mais importante de três debates). Há muito em jogo no debate de Coral Gables, sobretudo para Kerry, que vai atrás nas sondagens.

Este blog vai assistir ao debate num local onde o acesso à Internet não é garantido. Havendo Net, haverá também algumas actualizações para os leitores no hemisfério ocidental, ou para os leitores do resto do mundo com insónia.

Não gostamos de Kerry mas… 

…ainda gostamos menos do outro. Esta é a mensagem de vários sites na Internet de eleitores que, não estando nada entusiamados pelo candidato democrata, querem mesmo assim tê-lo na Casa Branca, porque têm um ódio visceral a George W. Bush. Exemplos: Kerry Haters for Kerry e o site com o título mais longo (e a URL mais comprida) desta campanha, johnkerryisadouchebagbutimvotingforhimanyway.

O anti-Fahrenheit 911 

Já havia livros, artigos de jornal e sites na Internet dedicados a refutar o filme de Michael Moore “Fahrenheit 911”. Agora também há um filme: chama-se "Celsisu 41.11” (“a temperatura a que o cérebro derrete”), e o “trailer” está disponível no site.

29.9.04

Porno por Kerry 

Sabendo que alguns leitores deste blog têm interesse no assunto, aqui está mais um link sobre a influência da pornografia na campanha americana.

O Porn for Kerry é um site destinado a vender um DVD de um filme X-Rated em que os actores encarnam personagens da vida política americana, particularmente as ligadas à Casa Branca Bush. Mais pormenores este blog não pode dar porque, naturalmente, não clicou nos “previews”. Todos os lucros da venda de DVD serão oferecidos à campanha de Kerry; aparentemente, o DVD está a vender bem.

Aviso: o link dá para a página inicial do Porn for Kerry, cujo conteúdo é mais ou menos inocente. As páginas seguintes, no entanto, não serão muito apropriadas para menores.

A culpa é das sondagens 

Na guerra da propaganda, um novo alvo: os institutos de sondagens. O grupo MoveOn.org pagou por um anúncio de página no “New York Times” (o link abre um ficheiro em PDF), acusando a Gallup de sistematicamente beneficiar Bush ao incluir um número exagerado de republicanos nas suas amostras. A Gallup responde dizendo-se inocente e isenta.

Gore dá conselhos 

Na véspera do primeiro debate entre Bush e Kerry, há muitos “treinadores de bancada” a dar conselhos ao candidato democrata. Mas ninguém tem tanta experiência em debates com Bush como o candidato derrotado de 2000, Al Gore. No “New York Times”, Gore escreve os seus conselhos a Kerry.

Gore aconselha Kerry a não menosprezar o seu adversário — estes serão “os debates mais difíceis da sua carreira”. Mas Gore diz que Kerry tem um factor importante do seu lado: a “performance” de Bush na Casa Branca é “um fracasso catastrófico”.

28.9.04

Os furacões afinal contam 

Perguntava um leitor num post abaixo se os furacões na Florida podiam ter consequências eleitorais. Este blog, na sua ignorância, respondeu que não sabia e que as coisas tanto podiam funcionar para um lado como para o outro.

Mas um programa da PBS (canal público de televisão dos EUA) apresenta uma resposta mais interessante. O cientista político Larry Bartels, que estuda a relação entre fenómenos naturais e políticos, concluiu da sua pesquisa que “há um padrão de os presidentes no cargo terem resultados menos bons em anos com tempo inclemente”.

Bartels especulou no programa da PBS que os democratas podem ter perdido a Casa Branca em 2000 porque esse foi um ano em que o clima foi particularmente extremo em algumas zonas dos EUA. Ora, uma correlação não implica uma relação de causa e efeito — mas, na lógica de Bartels, os furacões da Florida poderão fazer mal a George W. Bush.

Um apoio de peso 

A imprensa americana tradicionalmente faz “endorsements” políticos. A direcção editorial da maior parte dos jornais decide apoiar um dos candidatos, e alguns destes apoios têm certo peso. Tal como este — o jornal de Crawford, no Texas, uma terrinha junto do rancho de George W. Bush, deu o seu apoio a John Kerry.

Há que ter contudo algum cuidado a avaliar a representatividade do “Lone Star Iconoclast”; o jornal foi fundado só em 2000, e a sua circulação é de 425 exemplares.

O moderador 

O “árbitro” do primeiro debate presidencial, na quinta, será Jim Lehrer — um veterano da PBS, televisão pública americana, cujo programa de informação NewsHour é dos mais respeitados nos EUA. A escolha de Lehrer não causa discussões — mas há quem proteste por outros motivos. Várias organizações ligadas à comunidade afro-americana queixam-se da falta de diversidade étnica dos moderadores; nos três debates presidenciais, são todos brancos. Só no debate entre candidatos a vice-presidente é que a moderadora é uma jornalista negra.

E se fossem elas a debater? 

A editora de política da CBS News tem uma sugestão para os debates presidenciais — um debate entre as “candidatas” a “primeira dama”. E até oferece uma antevisão de como o debate poderia ser (“shove it, Laura”).

Dos leitores: comentários instantâneos, mais Iraque, Teresa e xenofobia, e os furacões da Florida 

Miguel Santos escreve de Sacramento, a capital da Califórnia, com duas sugestões:

“Acho que o blog sofre quando omite os endereços de importantes think-tanks progressistas da sua lista dos media americanos.

Sou da opinião de que a lista ganharia diversidade com a inclusão dos endereços de think-tanks como Salon, Washington Monthly, American Progress, e Rock Ridge Institute, por exemplo.”


É verdade que este blog tem-se desleixado na actualização da sua lista de links; por outro, a lista de links interessantes relacionados com as presidenciais americanas é tão vasta que é difícil reduzi-la a um conjunto conciso.

Mas os links propostos são de facto interessantes (uma nota: a Salon é uma revista online, e o site do Washington Monthly é um blog associado à revista do mesmo nome; só os outros dois são “think tanks”), e serão acrescentados nos próximos dias, juntamente com outras vozes mais à direita.

A segunda sugestão de Miguel Santos já foi feita por vários outros leitores:

“Também queria recomendar a inclusão de espaço para comentários no blog, mais especificamente no fim de cada um dos posts.

Essa inclusão permitiria a existência de comentários imediatos a cada uma das contribuições, e tornaria o diálogo muito mais rico.”


Não é difícil acrescentar uma ferramenta de comentários instantâneos — mas a experiência de outros blogs leva a fazer crer que os comentários imediatos tendem a ser demasiado “a quente”.

Leva mais tempo e dá mais trabalho enviar um e-mail — mas os comentários por e-mail têm a vantagem de introduzir um “período de espera”, que filtra as opiniões mais zangadas.

Por exemplo, uma polémica que se arrasta há vários dias (começou, neste post) provavelmente não teria a mesma elevação se estivesse a decorrer num espaço de “comentários instantâneos”. Escreve a propósito — por e-mail — Carlos Gomes:

“Li a resposta de André Carvalho a uma pergunta de Ana Almeida, que me fez pensar que a desinformação elaborada pela administração Bush tem os seus frutos, dado que só assim compreendo que pessoas, como este leitor, continuem a
afirmar que a guerra no Iraque teve como origem o 11 de Setembro!

Como se sabe não existe qualquer ligação entre a Al-Qaeda e o regime de Saddam, e a nacionalidade da maior parte dos terroristas era [saudita], não iraquiana, e já existia planos para a invasão do Iraque antes do 11 de Setembro!

Por outro lado, existia uma forte laicização do Estado iraquiano durante o regime de Saddam, o que atenta contra os princípios de [Osama] Bin Laden, portanto não os podemos, nunca, considerar "amigos".

Outra questão que me intrigou na resposta de André Carvalho foi que o mundo civilizado, que seria o nosso, foi para o Iraque para se defender, sendo esse um meio razoável. No entanto, como todas as agências nos informam actualmente o terrorismo está mais "descontrolado" do que antes da invasão, pois o Iraque tornou-se um pólo de angariação de novos terroristas, e antes não tinha havido por parte do Iraque qualquer acto terrorista!

Existe também o terrorismo de estado, [levado a cabo] pelo Estado de Israel, sendo apoiado pelos EUA, em que há vitimas "assassinadas barbaramente e de forma premeditada". E que como se vem a provar, ao longo da história, violência apenas gera mais violência. É impossível combater o terrorismo apenas desta forma pois como referiu é um inimigo invisivel que se alimenta do medo e da própria violência.”


Na mesma veia, de um blog do outro lado do Atlântico vem uma carta de Londres, redigida por Bruno C. Reis, que também responde à resposta de André Guerreiro:

“Então o Iraque é o resultado do 11 de Setembro? Só se for por este choque ter permitido ao grupo de neo-conservadores e RealPolitikers que dominam o presidente, avancar contra Bagdad como sempre tinham querido.

Apesar do enorme investimento de tempo e dinheiro, a única coisa que se conseguiu provar foi que a al-Qaeda tinha tentado contacter Saddam para obter algum apoio, mas nunca recebeu resposta a esse pedido.

E os iraquianos civis são sempre mortos por acidente? Bem, o incidente recente em que morreu um jornalista árabe como resultado de repetidos ataques de helicópteros norte-americanos a uma manifestação de iraquianos desarmados mostra que nem sempre é assim.”


Bruno Reis tem ainda duas questões. A primeira, sobre a mulher “portuguesa” de John Kerry:

“Se os americanos gostam tanto de falar claro e grosso, supostamente uma das causas dos seus problemas no exterior, porque é que Teresa Kerry e atacada precisamente por isso?

Por ser 'candidata' a primeira dama (sexismo, como me dizem uns amigos americanos)? Ou por ser de origem estrangeira (racismo light)?”


Os apoiantes de Kerry elogiam a candura de Teresa; os seus rivais acham-na desbocada.

A tendência da possível “primeira dama” para falar “claro e grosso” tem sido normalmente descrita como um ponto positivo, uma forma de “humanizar” a imagem algo fria de Kerry.

É certo que alguns comentários de Teresa Heinz Kerry têm sido menos bem recebidos — como quando ela disse “shove it” a um jornalista incómodo, ou quando descreveu como “idiotas” os críticos do plano de saúde do marido.

Haverá algum “sexismo” nas críticas a Teresa — mas muito menos que há doze anos, quando Hillary Rodham Clinton se apresentou como uma mulher forte e cheia de opiniões, que se recusava a “ficar na cozinha a fazer bolinhos”.

A maior parte das críticas a Teresa Heinz Kerry tem mais a ver com os seus milhões — os republicanos tentam descrevê-la como uma milionária elitista e distanciada dos americanos comuns.

Curiosamente, a sua origem “estrangeira” tem sido praticamente ignorada. Ao contrário do que seria de esperar, a perspectiva de pela primeira vez desde os tempos da fundação dos EUA uma “primeira dama” ser nascida no estrangeiro não tem despertado grande interesse.

Não há uma reacção xenófoba a Teresa Heinz Kerry (que, de resto, apresenta as suas raízes como africanas e não portuguesas). Afinal, este é o país que elegeu um antigo cidadão austríaco como governador do seu maior estado, e que pondera alterar a Constituição para lhe permitir candidatar-se à presidência.

A segunda questão de Bruno Reis:

“E o que acha do editorial do New York Times [de sábado] (e artigo do Washington Posst do dia anterior) sobre a forma como os republicanos têm dito que votar em Kerry seria votar em Bin Laden, ou que as suas criticas relativamente ao Iraque favorecem a resistencia iraquiana?”

Essas acusações foram feitas sobretudo por Dick Cheney, o vice-presidente cuja principal missão de campanha tem sido apontar baterias contra John Kerry.

A maior parte da imprensa americana reagiu negativamente aos ataques de Cheney; os dois artigos referidos criticam o vice-presidente por querer “assustar” os americanos, tentando criar a impressão de que se Kerry for eleito irá haver um novo atentado terrorista.

O próprio Cheney veio explicar que não era bem isso que queria dizer. Mas logo depois George W. Bush lançou novos ataques, acusando Kerry de criticar um aliado, ao contradizer a visão optimista do futuro do Iraque apresentada pelo primeiro-ministro Iyad Allawi.

São os ataques republicanos injustos? Quando falam em novos ataques terroristas e em Kerry ajudar o “inimigo” no Iraque, estão os republicanos a “pisar o risco”? Bom, essa uma questão para ser avaliada pelos eleitores americanos. O que é certo é que a campanha eleitoral entrou na recta final, e haverá muitos golpes abaixo da cintura até 2 de Novembro.

Finalmente, uma pergunta interessante de Pedro Miguel Sousa (que, como aparentemente a maioria dos leitores, também tem um blog):

“Tinha a curiosidade (se calhar mórbida) de saber se existe alguma ideia, algum debate, sobre quais poderão ser ou não, as consequências para as eleições dos 4 furações/tempestades que assolaram a Florida. Tenho lido que é um estado fundamental na decisão da vitória, por isso imagino que qualquer acontecimento naquele estado seja revisto à lupa.”

Muita gente teve de abandonar as suas casas; daqui até Novembro, a sua situação deverá estar resolvida, mas é possível que algumas vítimas dos furacões se tenham mudado para outras zonas do estado, ou até saído da Florida — e portanto que não votem.

A imprensa americana notou que as partes da Florida mais atingidas pelos furacões foram zonas predominantemente republicanas. Dessa forma, Charley, Jeanne e companhia afectariam o Presidente Bush.

Por outro lado, George W. Bush deslocou-se à Florida rapidamente, mostrou a sua solidariedade para com as vítimas dos furacões e prometeu disponibilizar rapidamente ajuda.

Uma catástrofe natural é o tipo de evento que ajuda à imagem de qualquer político. Além disso, o governador da Florida é Jeb Bush, irmão do Presidente; Jeb apareceu repetidamente nos “media” com uma voz serena garantindo que todos os esforços estavam a ser feitos para reduzir o impacto das tempestades. A sua resposta à crise poderá ajudar George W.

Ou seja, como em muitas outras coisas na Florida, é difícil determinar para que lado os ventos sopram.

27.9.04

Sondagem das sondagens: Bush à frente 

Excelente serviço da revista online Slate.com: uma espécie de “sondagem das sondagens”, agregando vários estudos de opinião e extrapolando a partir dos seus resultados para antever a distribuição dos votos no colégio eleitoral. Por agora, Bush tem uma vantagem confortável no colégio eleitoral, embora as coisas possam ser alteradas se Kerry conseguir recuperar em alguns estados onde a corrida está renhida.

O combate dos chefes 

John Kerry e George W. Bush farão três debates televisivos. O efeito dos debates no eleitorado é difícil de prever; não deverão ser decisivos, mas se a corrida se decidir por um punhado de votos, qualquer factor pode ser decisivo.

O primeiro debate é na quinta-feira, às nove da noite da Costa Leste dos EUA — duas da manhã em Portugal. A comissão independente que organiza os debates tem no seu site todos os pormenores sobre regras, calendário e formato dos “combates dos chefes”; a CNN analisa a importância e potencial impacto dos debates.


24.9.04

Teresa e a surpresa de Outubro 

Teresa Heinz Kerry diz que não ficava surpreendida se Osama bin Laden fosse capturado em Outubro — o que contribuíria obviamente para o sucesso eleitoral do adversário do seu marido. Este ponto de vista conspirativo não é original, mas não caiu bem nos EUA ouvi-lo de uma potencial "primeira-dama"; quase parece que Teresa está a torcer para que Osama não seja capturado tão cedo.

A eficácia oratória de Bush 

Mais um contributo para responder a uma questão que aparentemente deixa muitos europeus perplexos — porque é que tantos americanos votam em George W. Bush? O académico Stanley Fish — que aliás se confessa apoiante de John Kerry — explica no “New York Times” a eficácia oratória do Presidente, comparando-o com o seu rival.

23.9.04

Windsurfing vs. Juvenile 

Mais novas do mundo excitante da publicidade política nos EUA: Bush e Kerry trocaram anúncios de ataque.

O anúncio republicano mostra Kerry a fazer “windsurf”, e acusa-o de ser como os cataventos — segue na direcção que o vento soprar.

Poucas horas depois, os democratas já tinham no ar um anúncio de resposta: chama-se “Juvenile” (o termo quer dizer mais ou menos “pueril”), e acusa Bush de fazer anúncios de mau gosto enquanto ignora a deterioração da situação no Iraque.

Bush contorna as regras 

Os democratas já tinham encontrado uma forma de superar a sua desvantagem em termos de fundos de campanha, recorrendo às "527" — organizações teoricamente independentes, financiadas por milionários como George Soros, sobre as quais não há limites de dinheiro gasto.

Ora, os republicanos agora respondem com uma outra forma de de contornar as regras do financiamento eleitoral: basta dizer as palavras mágicas, "our leaders in Congress".

22.9.04

Dos leitores: ciência, polémicas e patriotismo luso-americano 

Palmira Silva, que participa neste blog, começa por chamar a atenção para este dossier da “Nature”:

“A revista Nature na sua última edição tem um especial sobre as eleições em que confronta as respostas dos candidatos Bush e Kerry em questões científicas fundamentais, como o futuro de algumas linhas de investigação (células estaminais, por exemplo), alterações climáticas e as acusações de mistura de política na ciência que são feitas à Administração Bush.”

Palmira Silva segue para uma crítica do currículo científico desta Casa Branca:

“As últimas acusações são confirmadas com o que se passou recentemente no Congresso, em que foi votado favoravelmente bloquear duas bolsas do National Institutes of Health's (NIH) e do National Institute of Mental Health (NIMH).

No ano passado, uma tentativa de retirar o financiamento a 200 projectos na área da sexualidade e abuso de drogas não passou por dois votos.

Ou seja, os cientistas americanos estão muito preocupados com o futuro da investigação científica nos EUA dada a tendência da Administração Bush para se imiscuir em projectos que já foram avaliados pelos seus pares.”


André Carvalho entra em polémica com a leitora Ana Almeida, que escrevia num “Dos Leitores” anterior:

“Está a haver uma GUERRA no Iraque. Os Estados Unidos estão nessa guerra. Morrem pessoas todos os dias. A maioria são iraquianos inocentes, muitos são americanos. Há atentados e crimes contra a humanidade diariamente. Isso não vale um artigo ou dois?

Responde André Carvalho:

“Convém lembrar a esta senhora que essa guerra a que se refere tem como origem os atentados de 11 de Setembro, em que milhares de inocentes foram assassinados barbaramente e de forma premeditada. Os inocentes que morrem no Iraque (que os há sem dúvida) não são assassinados de forma premeditada, mas vitimas de uma guerra.

Não sou a favor de guerras, e não acredito que haja pessoas “normais” que gostem de guerras, mas considero que os EUA e o “mundo civilizado” têm o direito de se defenderem de todas as formas “razoáveis” que têm ao seu alcance, pois este é um inimigo invisivel, muito perigoso e que recorre a todos os meios para espalhar o terror.

Basta ver o que se passou na Rússia, onde grupos ligados aos terroristas islâmicos fizeram milhares de crianças reféns, e abateram centenas a sangue frio sem qualquer remorso.

A unica forma de combater este tipo de terror é com guerra a todos os que os apoiam. Se esta senhora acha que dá para dialogar com terroristas deste calibre, aconselho-a a ir para o Iraque ajudar os mais necessitados, e pode ser que eu um dia eu a venha a reconhecer depois de a ver num «movie» na Internet a ser decapitada por terroristas somente por ser estrangeira e ter uma religião ou uma cultura diferente.”


O mesmo leitor não resiste a uma pequena provocação, inspirada nas dificuldades deste blog em encontrar uma boa tradução para o termo “heckler”:

“Eu tenho a tradução exacta de "Heckler" para Português. É: Francisco Louçã.”

Ainda temos a mensagem de Adalino Cabral, que como muitos luso-americanos do Massachusetts nasceu em São Miguel dos Açores, e combateu na guerra do Vietname, uma mensagem desencantada com a actual corrida presidencial:

“Infelizmente, estamos a passar outra amarga epoca histórica que está a dividir a nação. As forças proporcionando isso tudo não vêm do exterior, mas sim do interior. Isto não está bem assim!

A arrogância e os maus tratos públicos numa terra que sempre se orgulhou do respeito internacional são nódoas negras absolutamente desnecessárias!

Como terra acolhedora de tantos e tantos emigrantes oriundos dos mais diversos locais do globo, saboreamos, por experiência, uma América que aprendemos a defender através dos anos. Essa é a América que desejamos ver revitalizada...

Torna-se bastante doloroso admitir que a América está a sofrer cada vez mais internacionalmente por paises que outrora nos respeitavam — nos adoravam.

Deleitam-se em ver os transtornos que enfraquecem cada vez mais a fibra moral da nação. Os americanos não estão habituados a receber bofetadas dessas.

O ego politico tem que ser temperado com a consideração, dignidade, respeito, honestidade e honra individual de, e para, todos. Que isso surja em tom positivo e civilizado e que seja compartilhado nacional e internacionalmente nesta época ciberespacosa de comunicações imediatas...

A táctica utilizada actualmente pelos candidatos presidenciais não nos está a proporcionar classificações boas! Que eles tentem influenciar os votantes apenas através dos assuntos, e esqueçam-se de degradar-se um ao outro e ao país. Que debatam sobre assuntos de saúde, terrorismo, guerra, impostos…

Dizem que "o olho de Deus nos vigia”. Os políticos nao param de dizer — em despedida após os seus discursos pseudo-cristalinos — que "Deus vos abençoe, e Deus abençoe a America!"

Verdadeiramente, quão honroso será isso quando os candidatos maliciosamente se atacam um ao outro e logo após gloriosamente agradecem ao votante usando o nome de Deus? Faz sentido? Onde estão a verdade, a honra, a fé? Ou será tudo isso mera hipocrisia? Ou, simplesmente, o demónio na pele!?”

21.9.04

O plano de Kerry para o Iraque 

John Kerry acusou George Bush de incompetência na gestão do pós-guerra do Iraque, e descreveu a guerra como um erro. Kerry ofereceu um plano para o que será a sua política para o Iraque.

O plano, além de uma referência clara a aumentar o envolvimento da comunidade internacional, pode parecer difícil de compreender imediatamente. Para isso, a revista Slate oferece uma tradução de “Kerryês” para inglês. Afinal, alguns títulos de jornal mostram que a sua mensagem pode ter muitas interpretações.

CBS pede desculpa 

A televisão CBS pediu desculpa por ter usado documentos forjados numa reportagem sobre o passado militar de George W. Bush. A história de como Bush evitou combater no Vietname já não era nova, e não parecia estar a ter grande influência no eleitorado; agora, ainda menos terá.

18.9.04

Nader fica na Florida 

Muitos democratas culpam Ralph Nader pela derrota de Al Gore há quatro anos. Afinal, os votos captados por Nader são, em teoria, “roubados” aos democratas; na Florida, ele teve mais de 90 mil votos, e a diferença entre Bush e Gore acabou por se cifrar em menos de um por cento desse total. Os democratas tentaram — não só na Florida, mas em outros estados — impedir o nome de Nader de aparecer nos boletins de voto, usando estratagemas legais; mas, pelo menos no “Sunshine State”, o esforço falhou: uma decisão do Supremo Tribunal da Florida garantiu que Nader fica mesmo nos boletins de voto para as presidenciais naquele estado.

Dos leitores: Iraque e pornografia 

Mário Coelho por um lado, e Ana Almeida, de Portalegre, por outro, escrevem fazendo quase exactamente a mesma pergunta: porque é que não há mais Iraque neste blog? Resumindo a questão nas palavras de Ana Almeida:

“Está a haver uma GUERRA no Iraque. Os Estados Unidos estão nessa guerra. Morrem pessoas todos os dias. A maioria são iraquianos inocentes, muitos são americanos. Há atentados e crimes contra a humanidade diariamente. Isso não vale um artigo ou dois?

Não será mais importante escrever sobre o que se passa no Iraque que sobre as últimas sondagens? Se um país está em guerra, parece-me que a guerra será o factor decisivo nas eleições desse país.”


Com efeito, os EUA estão em guerra — este blog tem contudo por missão acompanhar a campanha eleitoral americana, não a evolução da guerra. Aliás, a missão deste blog é bem mais modesta que uma cobertura integral de todos os aspectos da campanha.

Mas será que o blog está a reduzir o Iraque a uma…

“questãozinha de somenos e negligenciável, uma coisinha de irrelevância no quadro geral”

…como escreve Mário Coelho? Bom, o problema é que o Iraque tem sido sem dúvida um tema de campanha, mas de certa forma saiu do “radar” eleitoral nas últimas semanas.

Se os eleitores americanos vão ter a guerra ou outras questões (o terrorismo, a economia) em mente na altura de votar, isso é uma discussão complicada. O que é certo é que, por agora, nenhum dos candidatos apresenta ideias particularmente inovadoras sobre o Iraque, como conclui esta interessante análise do Congressional Quarterly.

Isso não quer dizer que o Iraque esteja esquecido — longe disso. Mas a agenda noticiosa das últimas semanas (será assim até ao dia das eleições) tem estado mais dominada por questões de números e de estratégia.

Um outro leitor, co-autor do blog Renas e Veados, identifica-se apenas pelo cognome “Boss”. Normalmente este blog prefere nomes reais e completos (e, já agora, uma localização geográfica); mesmo no anonimato generalizado da Internet, um nome completo tem mais credibilidade.

Mas a pergunta de “Boss” é demasiado interessante para ficar sem resposta:

“Gostava de saber se são visíveis para o grande público as pressões que a indústria pornográfica norte-americana tem desencadeado no sentido de prejudicar Bush nas próximas eleições.

Nomeadamente através de sites como o Fuck The Vote ou na promoção de escândalos sexuais de políticos repúblicanos como tem feito a revista Hustler.”


A resposta, numa palavra, é “não”.

A indústria pornográfica é muito grande nos EUA. Mas tal como as películas “X-rated” ficam escondidas nas prateleiras mais discretas dos clubes de vídeo, também as opiniões políticas das estrelas de “filmes para adultos” têm muito pouco peso no debate público.

Tal como na Europa, as “porn stars” só são ouvidas quando se candidatam a cargos políticos — e Mary Carey, candidata a governadora da Califórnia em 2003, não teve nem pouco mais ou menos a mesma atenção que as campanhas de Cicciolina outrora despertaram em Itália.

Mas numa eleição que — dependendo das sondagens que se queira usar — deverá ser decidida por um punhado de votos, a influência do mundo porno poderá ser suficiente? Quem sabe.

Há vários exemplos para além dos referidos pelo leitor; no estado do Ohio (o “grande prémio” desta eleição), alguns “strip clubs” lançaram uma campanha de recenseamento eleitoral — e o objectivo das “strippers por Kerry”, como os comentadores republicanos lhes chamaram, é de facto angariar eleitores para votar contra Bush.

É compreensível que a indústria porno prefira os democratas, tradicionalmente mais tolerantes em questões de moralidade, aos republicanos. Também é compreensível que John Kerry não queira ver o seu nome muito associado a este mundo. Daí o papel limitado da indústria pornográfica.

Mas o leitor também pergunta sobre o efeito de escândalos sexuais nesta campanha. No início do ano, houve uma tentativa de desacreditar John Kerry através de um boato que lhe atribuía uma ligação extra-marital — mas o boato foi rapidamente desmentido e o assunto esquecido.

Não se conhecem escândalos sexuais a George W. Bush; nem é líquido que ele seja prejudicado pelos pecadilhos dos seus apoiantes (o seu director de campanha no Ohio teve de se demitir por acusações de adultério; um candidato republicano ao Senado pelo Illinois abandonou a corrida por um escândalo relacionado com o seu divórcio).

Larry Flynt, o editor da revista “Hustler”, continua decerto interessado em abater os seus inimigos republicanos quando encontrar provas de hipocrisia entre políticos “defensores da família”.

Mas, na América pós-Monica Lewinsky e pós-11 de Setembro, o efeito de notícias sensacionalistas será provavelmente reduzido. Como os dois leitores acima, os americanos estarão mais preocupados hoje em dia com a guerra e com a economia que com histórias de saias.

A recepção à biografia não autorizada de Kitty Kelley sobre a família Bush é testemunho disso. Apesar de as vendas se preverem robustas, e de o livro ter inúmeras histórias embaraçosas (se bem que na sua maioria vindas de fontes anónimas) sobre o clã Bush, a imprensa americana não lhe dedicou grande atenção, e é provável que o livro não tenha influência no debate eleitoral.

17.9.04

Como o discurso de Bush tem sucesso 

Retomando um tema recorrente neste blog: porque é que George W. Bush tem tanto sucesso junto de (mais ou menos) metade dos americanos? Ryan Lizza, do “New Republic”, oferece uma excelente explicação neste artigo, descrevendo um dos comícios de campanha de Bush.

Laura tem uma “heckler” 

Já aqui se tinha falado da frequência dos ‘hecklers’ nos comícios de Bush e Kerry. Mas agora até a “primeira dama” está sujeita a ouvir “bocas” — a mãe de um soldado morto no Iraque interrompeu aos berros um discurso de Laura Bush.

Sondagem: …ou talvez não? 

A sondagem Harris publicada pelo “Wall Street Journal” e referida no post aqui abaixo dava tudo de volta ao empate técnico. Outro estudo, do Instituto Pew, confirma essa ideia. Mas uma sondagem Gallup, coloca Bush bem à frente — por mais de 13 pontos!

16.9.04

Sondagem: tudo empatado outra vez 

Segundo uma sondagem Harris divulgada pelo “Wall Street Journal”, Kerry e Bush estão empatados outra vez nas sondagens. O estudo até sugere uma ligeira vantagem para Kerry. De volta ao “empate técnico”, então.

Kerry rio acima 

Depois dos anúncios anti-Kerry sobre o seu passado no Vietname, foi a vez de anúncios anti-Bush acusando-o de fugir à guerra, e de uma série de artigos sobre como é que o actual Presidente conseguiu um lugar na Guarda Nacional. O debate continua, e resultou numa estranha controvérsia sobre a veracidade dos documentos militares de Bush; a televisão CBS argumenta que eles são falsificados, mas o seu conteúdo é verdadeiro.

A coisa já mete peritos em máquinas de escrever “vintage”, um ângulo inesperado numa campanha eleitoral.

Será de esperar que o debate político saísse do Vietname mais tarde ou mais cedo - mas parece que vai ser mais tarde. O passado de Kerry no Vietname será recordado novamente num novo filme, “Going Upriver”. Este documentário, pelo menos, não é um ataque — baseado no livro do jornalista/historiador Douglas Brinkley, procura ilustrar os tempos de John Kerry como soldado no rio Mekong.

Marion Barry 

Não tem relação com a corrida presidencial, mas a história merece ser contada na mesma. Marion Barry está de volta. Barry é daquelas personagens cuja vida dá um filme; foi eleito por três vezes para a câmara de Washington. Teve de se demitir quando foi preso pelo FBI — foi apanhado, em vídeo, a fumar “crack” com uma prostituta. Foi para a cadeia, mas anos depois recandidatou-se e ganhou um quarto mandato. Parecia estar afastado da vida política, mas voltou agora, e vai ser eleito para a assembleia municipal da capital americana.




A escolha científica 

Mais uma dica do incansável Ponto Media: a Student Pugwash, uma organização ligada à educação universitária dos EUA, elaborou um guia das posições dos candidatos à presidência sob a perspectiva científica. O guia ainda é um “work in progress”, mas já tem trabalhos interessantes sobre o que pensam os candidatos sobre o aquecimento global ou o bioterrorismo.


Novo e-mail 

O endereço habitual parece estar a “perder” mensagens, por isso nova morada de e-mail para comentários, críticas, etc. dos leitores: presidenciaiseua@yahoo.com.

15.9.04

Voto jovem 

Na América como na Europa, o grupo demográfico que menos vota é o dos jovens, apesar de iniciativas como o Rock the Vote.

Mas este ano as coisas podem ser diferentes: segundo um artigo do “New York Times”, espera-se uma afluência às urnas perto de recorde para os jovens entre os 18 e os 20 anos.

Quem poderá ser beneficiado? Em 2000, este grupo etário dividiu os seus votos quase igualmente entre George W. Bush e Al Gore.


Europa-América, Vénus-Marte 

O distanciamento entre europeus e americanos é inevitável e irreversível? Ou será que o esfriar das relações transatlânticas é apenas consequência de George W. Bush estar na Casa Branca?

Os americanos eurófilos, tal como os europeus que gostam da América, preferem achar que a tensão é temporária e que o que nos separa é muito inferior ao que nos une.

Há quem pense de maneira diferente. Na frase celebrizada por Robert Kagan, “os americanos são de Marte, os europeus de Vénus”.

Por outras palavras: os americanos têm uma cultura mais militarista e não têm preconceitos em usar a força para resolver crises; os europeus; os europeus preferem a negociação e o apaziguamento.

Claro, há muitos, muitos americanos que não gostam de George W. Bush. E há pelo menos alguns europeus que não se revêm na tal ideologia “venusiana”.

Mas o abismo entre europeus e americanos é resolúvel? As opiniões dos leitores são bem vindas para o e-mail habitual. Por agora, duas vozes americanas com ideias opostas sobre o tema.

Daniel Hamilton, professor de relações internacionais na universidade Johns Hopkins e antigo secretário de Estado adjunto para Assuntos Europeus na Administração Clinton, acha que o cisma não é definitivo.

“Essa ideia é superficial e falsa. Temos parcerias em todas as áreas com os europeus. Nem é verdade que a Europa seja um ‘poder fraco’: é a segunda maior acumulação de poder militar no mundo.

Veja o Reino Unido, a França, que projectam o seu poder militar em quase todas as zonas do mundo. Poucas pessoas sabem, por exemplo, que a segunda nação no mundo com mais soldados em missões da ONU é a Alemanha.

Não é verdade que [a Europa e os EUA] se estejam a afastar. Há mais investimentos europeu no Texas — só no estado do Texas! — que investimentos americanos no Japão e na China, juntos.

As nossas economias estão cada vez mais interligadas. A saúde da economia americana é vital para a Europa, e vice-versa. Não há nenhuma relação no mundo que sequer se aproxime [ao elo transatlântico.”


Peter Brown, um colunista conservador no jornal “Orlando Sentinel”, discorda. Para ele, não só a metáfora de Vénus e de Marte é apropriada, como a distância só tende a aumentar, não a reduzir-se:

“É uma questão de valores e perspectivas diferentes. Numa série de assuntos básicos — a atitude perante o capitalismo, o uso da força — somos diferentes.

No ‘big picture’, nas maiores linhas ideológicas, [a separação é] definitiva. A noção de ‘ataques preventivos’ está no cerne da [crise actual]. A Europa Ocidental não tem capacidades militares para dar uma resposta ao nível dos EUA.

Sabendo disso, é normal que a opinião pública reflicta esse défice de força militar, que os europeus [prefiram soluções negociadas].

Nos EUA, muitas pessoas que apoiam George W. Bush sentem-se desiludidas com os nossos aliados tradicionais. Acham que [alguns países europeus] não estão a reconhecer a sua dívida [do passado], da I e da II guerras mundiais.”


As coisas serão diferentes se John Kerry estivesse na Casa Branca? E as coisas teriam sido diferentes se Al Gore tivesse sido eleito Presidente em 2000? Peter Brown acha que a diferença seria mínima. Daniel Hamilton discorda:

Teria sido radicalmente diferente. [A divisão actual] foi consequência das escolhas desta Administração. Os nossos aliados estavam prontos a trabalhar conosco no Iraque, a única diferença era no ‘timing’ de uma intervenção militar.

Os instintos de uma Administração Gore teriam sido de recolher apoios alargados. No Iraque e não só, Gore teria envolvido mais claramente os aliados no conflito no Afeganistão.

A política de Gore seria ‘juntos quando podermos, sozinhos quando for preciso’; a de Bush é o contrário.”

Dos leitores 

Nuno Pinho, que tem o seu próprio blog em Resistente Existencial, faz uma pergunta fascinante:


"Tenho ainda uma questão para lhe colocar, ao nível da que outro leitor já colocou. Li uma notícia que dizia "Gay GOP Group Won't Endorse Bush Reelection".

Fiquei supreendido, pois por cá estas associações costumam associar-se à esquerda, e não poucas vezes a uma esquerda bem distante do próprio centro ideológico.

Gostaria então saber se este grupo tem uma expressão forte dentro do eleitorado, se há outros grupos habitualmente conotados com a esquerda dentro do partido Republicano (por exemplo, os "verdes" ou grupos feministas), e em que moldes assenta o seu apoio a candidatos de direita."


Os Log Cabin Republicans são o principal grupo de activistas “gay” dentro do Partido Republicano — mas não são o único.

Os partidos na América têm uma estrutura muito diferente dos europeus. Mais que partidos, são coligações. Reflectem dentro de si uma enorme variedade de ideologias e interesses geográficos, demográficos e culturais.

A expressão “big tent”, “grande tenda” é frequentemente usada por membros de ambos os partidos; ainda na convenção republicana Arnold Schwarzenegger a mencionou, uma forma subtil de recordar que a inclusão de ideologias minoritárias dentro do partido é fulcral para o seu apelo a todos os americanos.

Dentro da “grande tenda” cabe muita coisa. Tanto republicanos como democratas têm princípios básicos que os distinguem, e que fazem de uns a “direita” e de outros a “esquerda” nos EUA. Mas o resto depende de estado para estado, figura para figura, e sobretudo de quem está conjunturalmente na liderança do partido.

Ora, é verdade que nos princípios básicos do Partido Republicano — nacionalismo; liberalismo económico; crença na liberdade do indivíduo; aversão ao intervencionismo do Estado — não há nada que preveja a hostilidade aos homossexuais.

Por outro lado, a facção maioritária e actualmente no poder entre os republicanos é, se não anti-“gay“, pelo menos pouco interessada nos “estilos de vida alternativos”.

Mesmo assim, há muitos republicanos “gay”. Porquê? Os cínicos dizem que é porque eles podem ser “gay”, mas não gostam de pagar impostos. Há uma velha anedota que explica o fenómeno: um republicano “gay” explica a sua conversão aos elefantes dizendo “era democrata, mas depois o meu rendimento passou para um escalão fiscal mais alto”.

Ou seja, os membros dos Log Cabin Republicans são “gay”, mas minimizam o lado mais conservador em termos sociais do partido, porque as suas ideias económicas ou de defesa estão mais em sintonia com a doutrina republicana.

Qual é a expressão eleitoral dos Log Cabin? Segundo os próprios, mais de um milhão de americanos homossexuais votou em Bush em 2000. Com a controvérsia do casamento “gay”, muitos não o farão desta vez — como o famoso “blogger” Andrew Sullivan, que apesar de aprovar a actuação de Bush em muitas áreas, diz que não conseguirá votar no Presidente em Novembro.

Haverá muitos republicanos como Sullivan? Em Novembro se saberá.

Quanto à segunda parte da questão de Nuno Pinho — sim, há outros grupos tradicionalmente encarados como “de esquerda” que votam republicano.

Por exemplo, os Republicans for Choice são a favor do direito ao aborto. Ann Stone, porta-voz do grupo, disse ao PÚBLICO durante a convenção republicana estar desiludida com a posição inflexivelmente “pro-life” do seu partido.

Mas embora desiludida com o radicalismo dos republicanos sobre o aborto, Stone não tinha qualquer intenção de se juntar aos democratas. Para lá do aborto, a sua ideologia continua mais próxima dos “elefantes”; “Este é o meu partido”, dizia.

Outras “aves raras”: minorias étnicas, tradicionalmente encaradas como de “esquerda”, pelo menos nos EUA, porque costumam votar democrata. Mas também há hispânicos e negros no Partido Republicano — só 9 por cento dos afro-americanos votaram Bush em 2000, mas eles existem.

E ecologistas? “Verde” normalmente é uma cor mais associada à esquerda. Mas também há “verdes” republicanos. Como este grupo. Se bem que entre os ecologistas republicanos haja sinais claros de desilusão com George W. Bush — basta ver a demissão de Christie Whitman, chefe da agência ambiental do Governo americano, que se demitiu no ano passado, ou esta declaração de uma republicana “verde”.

Enfim, há que notar também que os democratas também são uma “grande tenda”, que inclui posições muito diversificadas. Não é preciso ir buscar o senador Zell Miller para descobrir democratas à direita — há, por exemplo, os democratas anti-aborto.


14.9.04

A clintonização de Kerry 

Pelo menos um dos erros de Al Gore John Kerry não vai cometer. Kerry não pretende pôr de lado Bill Clinton e a sua falange de “friends of Bill”, responsável pela última campanha bem sucedida de um democrata à Casa Branca.

A campanha de John Kerry está a ficar cada vez mais clintonizada. Aflito com a queda nas sondagens face a George W. Bush, John Kerry recorre agora a Mike McCurry, antigo secretário de imprensa de Clinton. O ex-presidente já saiu do hospital onde foi operado ao coração, diz-se que está de bom humor, mas acções de campanha a favor de Kerry não deverá haver tão cedo.

Rock n' roll Kerry 

Na sua juventude, John Kerry foi baixista de uma banda rock. Os Electras são típicos da era — uma cópia meio desafinada e instrumental dos Beach Boys ou de Dick Dale. Mas claro, a música dos Electras desperta agora nova curiosidade. Há inúmeros sites com “clips” do único álbum dos Electras — que foi reeditado. Que se saiba, George W. Bush nunca se meteu no rock n' roll, embora haja quem sugira que Bush teve relações próximas com os dois outros elementos da célebre trindade.

A morte do civismo 

"Heckler": em português não há uma tradução exacta para este termo. Um “heckler” é alguém que perturba uma intervenção pública com comentários ofensivos ou jocosos. Pode ser um membro do público num espectáculo teatral ou de “stand up comedy” que interrompe o artista com vaias ou com piadas; pode ser um espectador num comício político que desata aos berros contra o orador.

Esta campanha eleitoral está cheia de “hecklers”. Volta e meia, John Kerry e George W. Bush são interrompidos por indivíduos que querem protestar contra as suas políticas não os deixando falar. Bush foi interrompido duas vezes na convenção republicana por “hecklers”; em campanha, a assistência dos seus discursos é rigorosamente seleccionada, mas mesmo assim alguns “hecklers” continuam a aparecer.

Kerry, claro, também tem os seus “hecklers”. Ao contrário de Bush, que normalmente ignora as interrupções, Kerry normalmente integra os ataques no seu discurso. A América sendo como é, algumas destas histórias acabam em tribunal.

Os “hecklers” não são um fenómeno novo, e o seu efeito é quase irrelevante. Mas a sua proliferação — dia sim dia não há mais uma história de um comício interrompido — é mais um síntoma da degradação do discurso político. Há muita gente que já não consegue sequer deixar o “inimigo” falar à vontade.

13.9.04

Maldita cocaína? 

Este blog já falou antes na expectativa à volta da
biografia de Kitty Kelley sobre a família Bush, que se promete recheada de revelações sensacionalista sobre o actual Presidente e o seu clã.

O livro é publicado amanhã nos EUA. A autora estará toda a semana em entrevistas a “talk shows” televisivos. A campanha de Bush garante que o livro não é de confiança.

Antes da publicação, os tablóides ingleses já haviam levantado o véu sobre as histórias mais bombásticas do livro — como esta, por exemplo.

12.9.04

Um português no “Bush country” 

Não há muitos portugueses no Texas, mas Rogério Morais vive em pleno “Bush country”. Este português ligado à indústria da Internet aqui está o seu site vive perto de Dallas, e conta a sua experiência texana:

•Sobre se os texanos correspondem à imagem de “cowboys” que se tem deles fora dos EUA:

“Em parte sim. Eu não diria que são barulhentos, acho emotivos uma palavra mais indicada.

Existe um grande orgulho do Texas e de ser texano. Don't Mess With Texas e the Lone Star State são os lemas do estado, que indicam bem o orgulho texano. Em relação às armas, dou um exemplo; houve um dia que fomos (eu e a minha mulher) ao downtown de Dallas para uma exposição de tecnologia e havia um "gun show" [feira de venda de armas] . Foi "engraçado" ver os texanos a andar pela rua com as armas na mão (algumas delas espingardas).

No início do século passado (1905) foi criada uma lei que proíbia andar com armas em público, mas quando o Bush concorreu para governador, uma das suas promessas foi mudar essa lei. Assim que foi eleito, foi isso que ele fez, e hoje através do Concealed Handguns Law qualquer pessoa pode pedir uma licença para andar com uma arma na rua.

Sobre outros estereótipos, eles correspondem à verdade. Os texanos são bastante religiosos e conservadores. Qualquer cidade pequena tem no mínimo 3 ou 4 igrejas de diferentes denominações, não é como em Portugal, onde a Igreja Católica domina, mas a maior parte é católico não-praticante.

É também raro encontrar alguém na rua com um chapéu à JR Ewing, pelo menos nas cidades grandes, mas é já mais normal ver-se roupas cowboy (botas, calças de ganga e camisa).”


•Sobre o que os texanos acham de George W.

“Os texanos pensam que Bush é um deles. A atitude texana é diferente da do resto dos EUA (naturalmente, tal em Portugal as pessoas do norte são diferentes das pessoas do Sul e as dos Açores são diferentes das da Madeira, etc.) e eles revêm–se em muitas das reacções de Bush, [frases como] Wanted Dead or Alive ou o Bring it on. Isso do Bush foi 100% texano, e aqui adoraram.

Uns 6 meses atrás, conversei com um Texas Ranger (polícia estadual do Texas) que frequentava a mesma igreja que eu e a minha mulher. Ele tinha feito parte da segurança do Bush durante o tempo que era o governador. O que ele disse foi que Bush era um "regular guy", bastante simples.”


•Sobre como é a vida dos democratas num estado hiper-republicano

“Bastante difícil. Todos os cargos a nível estadual estão nas mãos dos republicanos, inclusivé os dois senadores federais do Texas são republicanos. Só no congresso federal é que a delegação do Texas é maioritariamente democrata (17-15), mas não será por muito tempo.

Como o congresso e senado do Texas é totalmente dominado pelos republicanos, eles conseguiram mudar o mapa eleitoral do congresso e, nestas eleições, os republicanos vão de certeza dominar a última coisa que faltava. Segundo o "Dallas Morning News”, os republicanos deverão conseguir pelo menos 21 lugares, provavelmente mais.”


•Sobre ser português no meio do Texas depois da guerra no Iraque

“Para dizer a verdade, eu não notei nenhuma diferença, a maior parte dos texanos não tem a mínima noção onde fica Portugal ou sequer se Portugal apoiou ou não a guerra no Iraque.

No início, quando dizia que era de Portugal, a maior parte (mais de 90%) ficava a olhar para mim com cara de quem não tinha a menor ideia onde Portugal era.

Hoje em dia, eu normalmente digo que sou europeu, acrescentando "de Portugal". No aspecto dos estrangeiros, os texanos estão bem mais preocupados com os mexicanos que com qualquer outro grupo étnico.”

Dos leitores 

Paulo Cabral Vaz expressa repugnância não apenas por George W. Bush mas por toda a política externa americana:


“Assalta-me a eterna dúvida: como pode um Povo pertencer a um País onde se diz que está instalada uma franca democracia e, de acordo com as sondagens, permitir que o Candidato Bush continue a apresentar um «score» acima de Kerry?

Como pode um Povo dito e tido por esclarecido votar no desconforto da política americana, no golpe de asa da política do Médio Oriente com a sistemática adopção de defesa dos actos sionistas, na destemperada ideia de quererem dominar o Mundo através da estratégia do fusil digital?

Será que nós, Europeus, teremos que continuar a gramar os Senhores Presidentes do EUA e a sua interferência na vida do quotidiano? Que legitimidade têm os Presidentes do EUA para imporem as suas políticas fora do território dos EUA? Ou será que teremos que pensar numa nova ordem política internacional de forma a serem evitados os abusos do poder dos EUA?”


Xavier Nunes escreve de França mas, hélas, com um teclado americano, sem acentos (correcções adicionadas), e expressa sentimentos semelhantes:


“O problema das eleições dos EUA comeca bem cedo: financiamento para a candidatura! E impossível fazer uma boa campanha sem muito dinheiro, tendo em conta que existem limitações ao uso de dinheiro pessoal, a dependência aos 'financiadores' é um problema gravíssimo!”


Uma nota: na verdade, não há limitações ao uso do dinheiro pessoal. Cada candidato pode usar quanto do seu dinheiro quiser.

Jon Corzine, democrata de New Jersey, gastou 60 milhões de dólares do seu bolso para financiar a sua eleição para o Senado em 2001; no ano seguinte, Michael Bloomberg gastou 70 milhões para conquistar a câmara de Nova Iorque.

Em 1992 e 1996, Ross Perot desembolsou ainda mais em duas candidaturas à presidência. Os dois candidatos presidenciais deste ano, sem serem “pobrezinhos”, não têm tais meios; a mulher de ascendência portuguesa de Kerry é milionária, mas como o resto dos cidadãos americanos não pode contribuir mais de 2000 dólares.

Por isso, tanto Kerry como Bush de facto dependem para financiar a sua campanha daquilo a que Xavier Nunes chama “as máquinas de dinheiro”:


“Qualquer presidente dos EUA vai depender das 'maquinas de dinheiro', de favores pessoais a essas 'pessoas/empresas'... em prejuízo dos mais desfavorecidos. Os grandes investimentos governamentais vão sempre favorecer as pessoas/empresas que ajudaram na eleição do presidente em causa.”


Numa veia semelhante, António Venâncio opina a partir de Braga:


“Espero bem que esse senhor Richie Robb faça um favor a ele e ao mundo e mude o seu voto. Mais quatro anos de Bush? Livra! Quatro anos de impunidade, de imperialismo, de guerra, de desrespeito pelo ambiente e pelos povos mais desfavorecidos? Já chega!

Como é que os americanos não vêem o que todo o mundo vê? Será assim tão difícil explicar-lhes? Num país tão grande como os EUA é tão difícil arranjar alguém um bocadito menos mau?”


Obrigado aos leitores que escreveram. Entre as mensagens até agora publicadas, estabeleceu-se um padrão: os leitores deste blog variam entre os que acham George W. Bush um Presidente incompetente, corrupto, mal-intencionado ou tudo isso junto.

Não foram publicadas mensagens com uma opinião mais favorável a Bush porque, bem, ainda não foi recebida nenhuma. Se há leitores menos anti-Bush deste blog, eles têm estado até agora bastante silenciosos.

10.9.04

Teresa escondida 

Teresa Heinz Kerry tem estado algo discreta. Depois da convenção democrata, é raro ver referências a ela nos “media”.

No início do Verão, a esposa de ascendência portuguesa do candidato democrata multiplicava-se em intervenções mediáticas. A campanha de Kerry parecia vê-la como uma potencial influência “humanizadora” à imagem algo fria do candidato. A mediatização de Teresa culminou num artigo de capa da revista “Newsweek”.

Desde então, Teresa tem andado algo “escondida”. Será porque o seu discurso na convenção de Boston teve uma recepção algo morna?

Teresa continua em campanha, mas de uma forma mais discreta. Na semana passada, ela teve uma indisposição que a levou ao hospital — mas rapidamente teve alta.

O seu nome só voltou às páginas da imprensa quando ela chamou “idiotas” aos que discordam do plano de saúde do seu marido. Aparentemente, os democratas pretendem usar Teresa sobretudo para se dirigir a eleitores específicos, como o hispânico — no domingo, ela vai dirigir-se a uma influente organização nacional de hispano-americanos.

É difícil tirá-los de lá 

Desde o início da campanha que se diz que esta eleição presidencial vai ser das mais renhidas de sempre. Isso leva a que um dado importante tenha sido ignorado. É muito difícil derrotar um Presidente em exercício. Na América, aliás como em muitos outros países, a vantagem de quem já está no poder é substancial sobre os seus adversários.

No século XX, foram muito raros os casos de presidentes que foram a votos e perderam. Muitos presidentes não cumpriram um segundo mandato, mas normalmente porque decidiram não se apresentar à reeleição (Coolidge, Johnson) ou morreram enquanto na Casa Branca (Harding, Kennedy).

Os que perderam a reeleição, perderam em circunstâncias especiais.

William Howard Taft, um republicano, foi afastado em 1912 por Woodrow Wilson por causa de uma cisão no seu partido — uma terceira candidatura do ex-presidente Theodore Roosevelt fê-lo perder muitos votos. A mesma razão pode ser apresentada para a derrota de outro republicano, George H. Bush, 80 anos depois: um independente, Ross Perot, obteve 20 por cento dos votos, muitos deles desviados a Bush, permitindo o triunfo de Bill Clinton.

Herbert Hoover, derrotado em 1932 por Franklin Roosevelt, apanhou com a Grande Depressão. Gerald Ford, que perdeu em 1976 contra Jimmy Carter, nunca tinha sido eleito — substituiu Richard Nixon depois do escândalo Watergate.

Sobre Jimmy Carter, que foi derrotado em 1980 por Ronald Reagan. Há uma série de factores para explicar o seu fracasso, embora nenhum seja uma “circunstância especial” do calibre dos outros. Será Bush como Carter, ou irá cumprir a norma da reeleição?

Sondagens: Bush à frente 

Depois da convenção republicana, muita atenção tem sido dada às sondagens. Bush vai à frente por 9 pontos, por 11, continua em empate técnico com Kerry? As sondagens feitas durante ou logo após a convenção são fiáveis? As opiniões, e os números, são variados.

Mas todas as sondagens concordam que Bush conquistou um ligeiro avanço sobre Kerry. Mais: não só Bush vai à frente nas sondagens a nível nacional, também aparece como vencedornos estudos dos “estados cruciais”.

9.9.04

O poeta que pacificou as guerras culturais 

No início dos anos 90, o mundo das artes dos EUA estava em polvorosa, apanhado nas “guerras culturais” entre conservadores e “liberais”.

O National Endowment for the Arts (NEA), fundo federal que financia a produção artística, foi repetidamente ameaçado de extinção pelos republicanos mais conservadores.

Houve batalhas intermináveis à volta do financiamento público de obras controversas de artistas como Robert Mapplethorpe ou Chris Ofili.

Ora, George W. Bush está na Casa Branca há três anos, e George W. Bush não é conhecido pelo seu amor pelas artes, tem uma filosofia conservadora, e faz da redução das despesas do Estado uma das suas maiores bandeiras.

Seria de esperar que sob a sua Administração o NEA fosse reduzido à insignificância. Mas não: pelo contrário, o financiamento do fundo foi reforçado nos últimos anos. A razão? Segundo este artigo do “New York Times”, a habilidade política do gestor nomeado para o NEA por Bush, Dana Gioia, que conseguiu o impossível: pacificar a relação entre artistas e republicanos.

"Irá Richie Robb decidir quem é o próximo Presidente?” 

E o leitor pergunta: quem é Richie Robb? A explicação está neste artigo de um jornal da West Virginia . Robb é um republicano que, se Bush vencer as eleições naquele estado (onde ganhou em 2000), será um dos “grandes eleitores” que fazem parte do “colégio eleitoral” que escolhe o Presidente.

Robb põe a hipótese de abandonar a disciplina partidária e violar o mandato dos cidadãos da West Virginia, e de não dar o seu voto a Bush. O que, se a eleição for muito renhida, ou se houver mais “grandes eleitores” a seguir o exemplo de Robb, pode criar um problema ainda maior que o de 2000. É muito, muito improvável que as coisas cheguem a este ponto, mas não é impossível. O que leva um outro potencial “grandes eleitores” a perguntar-se no artigo do “Charleston Daily Mail” se Richie Robb vai ter este ano o papel que o Supremo Tribunal teve há quatro anos.

(dica Ponto Media)

Onde está Osama? 

Última nota sobre a convenção republicana: falou-se lá muito de terrorismo e do 11 de Setembro, mas não se ouviu uma única vez este nome.

8.9.04

Problemas técnicos 

Este blog esteve paralisado 24 horas por problemas técnicos. Aguardam-se explicações do Blogger…

Actualização: o Blogger esteve em “blackout”, mas garante que o problema está resolvido e que vai fazer “a full system
audit to ensure that proper redundancies are in place”.

Ao ataque 

Ainda Peter Hart, sobre um assunto diferente: a capacidade de ataque do Partido Republicano. Ao contrário dos democratas, que fizeram todos os esforços para manter a sua convenção “positiva” e com poucos ataques ao Presidente, os republicanos não pouparam ataques a John Kerry. Aparentemente, olhando para as sondagens, a estratégia funcionou.

É interessante como os republicanos venderam aos ‘media’ a ideia de que [na convenção foi apresentada] a face moderada do partido. E depois fizeram um assalto frontal a Kerry.

Eu culpo os ‘media’. Até Rudy Giuliani, que é suposto ser o ‘mayor’ da América, atacou desalmadamente [Kerry]. Na convenção [democrata, o reverendo] Al Sharpton foi o único a fugir ao guião, fez um discurso muito crítico, e acabou por ser atacado na imprensa por isso.

Os republicanos são mais hábeis a gerir os ‘media’. São muito rápidos a gerar ‘equipas de resposta’. [Na convenção democrata de] Boston, ainda os aplausos não tinham parado e já eles estavam a responder [aos oradores]. Os democratas não conseguiram fazer o mesmo.


A eficácia das multidões 

Peter Hart é co-apresentador de LINK Counterspin, um programa radiofónico dedicado ao acompanhamento dos “media” americanos. O PÚBLICO perguntou-lhe sobre qual o efeito que as grandes manifestações anti-Bush durante a convenção republicana de Nova Iorque iriam ter.

Olhando para as sondagens pós-convenção, em que George W. Bush subiu muito em relação a John Kerry, a resposta parece ser “nenhum”. Mas Hart (entrevistado na semana da convenção) tem uma opinião diferente:

“Os manifestantes [queriam] mandar uma mensagem. Acho que eles vão ter um impacto. Pode não ser imediato, pode não se reflectir nas sondagens.

Mas olhe para [os protestos antiglobalização de 1999 em] Seattle. Nessa altura, a Organização Mundial do Comércio [OMC] não era conhecida. De repente, esta organização semi-obscura tornou-se um nome comum.

Os protestos têm esse efeito. Claro que Bush não é nenhum desconhecido, mas a agenda dos manifestantes pode [marcar o debate].


Hart queixa-se do papel dos “media” durante a convenção, considerando que os jornalistas não souberam cobrir os protestos de Nova Iorque:

“As manifestações estavam literalmente à porta da convenção, e os ‘media’ fizeram muito pouco esforço para as cobrir. Estavam à espera de um espectáculo violento, não tiveram [confrontos], e não souberam como reagir.

Ted Koppel [apresentador do programa Nightline na televisão ABC] disse que isto não era como [a convenção democrata de] Chicago em 1968 [em que houve enormes e sangrentas batalhas entre manifestantes e polícia].

Ou seja, se houvesse violência havia história, assim não. Acho isso uma forma absurda de olhar para as coisas.


7.9.04

Bushismo do dia 

Este blog não costuma documentar os pontapés à língua inglesa do Presidente Bush; é assunto antigo, bastante irrelevante para avaliar a personagem, e não tem sequer influência sobre a sua popularidade.

Mas este bushismo (link abre vídeo em QuickTime) é bom demais para resistir.

Contexto: num comício no Missouri, tal como havia feito no seu discurso à convenção republicana, Bush havia-se referido ao problema dos custos crescentes dos seguros para médicos. Esses custos fazem com que muitos especialistas — especialmente obstetras e ginecologistas, ou “ob-gyns” — abandonem estados onde é fácil colocar processos por negligência.

Referindo-se aos “processos frívolos” que ameaçam os “ob-gyns”, Bush declarou:

“Há demasiados ‘ob-gyns’ que não podem praticar o seu amor com mulheres neste país.”

No vídeo em quicktime, ainda é mais engraçado.

6.9.04

Dos leitores 

O lisboeta João Vasco Ribeiro Ferreira Gama escreve da Austrália (pedindo desculpa por os teclados anglo-saxónicos não terem acentos — tentaremos corrigir onde necessário) e coloca uma pergunta muito frequente:


"Quando acompanho toda a questão relativa às eleicões norte-americanas, fico espantado (muito espantado mesmo) com as dúvidas que assaltam o eleitor norte-americano. Como é possivel ter dúvidas?

A gestão de George W Bush foi tão má, que mesmo no que respeita às tradicionais bandeiras republicanas se pode argumentar de forma decidida contra a sua estadia no poder."


Muitos europeus têm a mesma reacção — “como é possível alguém votar em Bush”? Uma resposta interessante, e adiantada por um europeu, foi publicada num editorial de um jornal austríaco, “Der Standard”:

“Mais quatro anos de Bush, para quase todos os europeus, é uma ideia muito desagradável, mas é bom que nos habituemos a ela. Apesar de todas as suas falhas, Bush parece [aos eleitores americanos] um líder forte, e John F. Kerry não.”

De volta ao mail de João Ferreira Gama:


"Apesar de ter atacado os direitos civis, a seguranca social, a ajuda aos paises subdesenvolvidos e as medidas de protecção do ambiente (tudo bandeiras tradicionalmente democratas), Bush conseguiu ter uma gestão desastrosa da economia (como mostram todos os indicadores, desde os respeitantes ao crescimento economico até aos que respeitam ao défice, sem falar dos valores do desemprego...), e quebrar o posicionamento face à doutrina isolacionista, tão cara aos republicanos, tendo feito enormes danos à diplomacia norte-americana.

Além disso, arrasou o grande motor da economia dos EUA: um sistema científico liderante, o qual quis manipular enquanto sub-financiava. Foi por isso que vários premios Nobel, apesar da sua aversão à intromissao na vida política, se pronunciaram contra Bush.

Espero que os eleitores norte-americanos sejam sensatos e tomem a decisão que mais os favorece (votar em Kerry), pois o resto do mundo também tem a ganhar com isso."


Álvaro Morais, que escreve dos EUA, também não tem acentos no seu teclado, mas a sua dúvida é diferente. Pergunta porque é que os republicanos detestam as as estrelas do cinema:


“Custa-me a compreender esse ódio a Hollywood. Os americanos vivem fascinados pela máquina de sonhos tanto ou mais como qualquer outro povo. No meu supermercado as únicas publicações à venda são revistas dedicadas à fofoca do famoso.

E como diz no seu post os republicanos são o partido de Schwarzenegger e Reagan, e mais que isso, o apresentador que introduziu Bush na convenção é chamado Fred Thompson, outro actor!”


Ricardo Silva, de Almada, ficou impressionado com as multidões anti-Bush durante a convenção republicana:


“Não concordo que as manifestações não serviram para nada. É verdade que as televisões americanas devem ter censurado, se forem como as portuguesas, que não acham importância a centenas de milhar de americanos a protestar contra o sr. Bush.
Apesar disso, 250 mil é “muita fruta”. O Público escreveu que foi assim todos os dias. Essa gente toda há-de servir para alguma coisa?”


Obrigado aos leitores que escreveram; todas as mensagens a este blog são bem vindas, e serão publicadas com ligeiras adaptações por razões de espaço, estilo, e acentuação.

Da cama de hospital, Clinton dá palpites 

Bill Clinton estará agora a ser operado ao coração num hospital de Nova Iorque. O ex-presidente estará no bloco cirúrgico até às seis da tarde (hora de Portugal). Durante o fim-de-semana, mesmo de cama, Clinton não parou. Com George W. Bush aparentemente a ganhar avanço sobre John Kerry nas sondagens, Clinton telefonou do hospital a Kerry, numa conversa de 90 minutos repleta de conselhos estratégicos.

4.9.04

O coração de Clinton 

Bill Clinton vai ser operado ao coração. O ex-Presidente americano está “um pouco assustado”, mas mantém-se de bom humor — como se confirmou quando ele telefonou para o programa da CNN Larry King Live (o link abre um vídeo em QuickTime).

Aos leitores 

Daqui até às eleições de Novembro, este blog terá um espaço periódico (dependendo do volume de mensagens) para os leitores. Comentários, críticas, sugestões, são bem vindas a este endereço de e-mail:

presidenciaiseua(AT)yahoo.com

(Substituir (AT) por @ — os especialistas aconselham a não escrever integralmente endereços de e-mail em páginas da Net para fugir aos robots de spam)

Agradece-se a identificação dos leitores com nome, apelido, e origem geográfica.

…E mais observações sobre a convenção republicana 

•Os americanos são de Marte

“Os americanos são de Marte e os europeus de Vénus” é uma célebre boutade do comentador Robert Kagan. Há uma certa verdade nisto: mesmo antes do 11 de Setembro, a cultura americana já tinha mais respeito pelas instituições militares que a europeia.

Agora, mais ainda. Que os republicanos demonstrem a sua afeição por uma política externa musculada e façam do apelo patriótico a “apoiar os soldados” grande parte da sua ideologia não é novidade.

Mas a convenção democrata em Boston também teve um tom marcial — afinal, John Kerry fez do seu currículo militar no Vietname o centro da sua campanha, e pelo palco do Fleet Center passaram inúmeros veteranos de guerra e generais reformados.

Os democratas, tradicionalmente mais “pacifistas”, também estão imbuídos de um espírito não militarista mas muito respeitoso das instituições militares. À esquerda e à direita, os americanos estão do lado de Marte.

•Édipo no Garden

No seu discurso, George W. Bush mencionou a família — as filhas, a mulher, os pais. Mas Bush apresentou o seu pai como se ele tivesse tido uma carreira qualquer, não como um ex-presidente dos Estados Unidos.

Nem uma referência houve durante toda a convenção à presidência de George H. Bush. Bush-filho só falou da carreira política do pai para dizer que ele foi, durante oito anos, vice-presidente de Ronald Reagan.

E de Reagan, Bush e os outros republicanos falaram muito. Tudo isto envolve especulações sobre complexos edipianos que não cabem aqui. Mas a interpretação é óbvia: George W. Bush é filho de George H. Bush, mas a sua filiação política é de Reagan.

•Édipo no Garden II

Durante o seu bizarro e incrivelmente mal recebido discurso, as filhas gémeas de George W. Bush disseram que iam vingar-se por todas as ocasiões em que os pais embaraçam os filhos adolescentes — e conseguiram.

Elas referiam-se à revelação (que não era novidade) de que os “petit noms” por que George W. e Laura Bush se tratam são “Bushie” e “Bushy”. O eleitorado americano não precisava de saber isso.

Mas o resto do discurso de Barbara e Jenna Bush foi todo ele um embaraço. Até jornais e televisões que normalmente são vistos como órgãos oficiais de propaganda da Casa Branca acharam a intervenção das gémeas de um profundo mau gosto.

Barbara e Jenna saíram do Garden com uma imagem de meninas mimadas e ignorantes — a geração dos “reality shows”, escreveu um comentador; clones de Paris Hilton, vituperou outro.

O veneno dirigido ao seu discurso foi invulgar, sobretudo para filhas de um Presidente, que normalmente são resguardadas dos ataques da imprensa. O contraste com as filhas (mais velhas, mas também mais sofisticadas) de John Kerry não foi nada bom para George W. Bush.

Ele e Laura já se terão arrependido de não cumprir até ao fim a política dos Clintons — que combateram sempre com grande afinco qualquer intromissão dos “media” na vida da sua filha Chelsea, e nunca a colocaram no pódio de um comício político.

Ainda mais observações sobre a convenção republicana 

•Os republicanos são boas pessoas

É verdade. Todos os delegados e funcionários republicanos com que o PÚBLICO falou em Nova Iorque eram invariavelmente simpáticos, extrovertidos e cordiais.

Nem sequer é verdade que os republicanos sejam um bando de ultraconservadores aversos a ambientes cosmopolitas. Havia a ideia entre muitos nova-iorquinos que os republicanos encaram a sua cidade como uma Sodoma moderna, e que iriam fazer todos os esforços para se isolar do ambiente decadente e pecaminoso da “big apple”.

Mas os delegados sentiam-se às mil maravilhas em Nova Iorque, esta cidade tão aversa às suas crenças. O “choque cultural” teve só um sentido: os nova-iorquinos, na sua maioria, não gostam, não compreendem e não querem saber dos republicanos.

Por sua vez, os republicanos adoram Nova Iorque. Uma sondagem aos delegados republicanos do “New York Times” apurou que 93 por cento deles têm boa imagem da cidade — um número que se calhar não seria atingido numa sondagem aos próprios nova-iorquinos.

•Zell Miller: caso de hidrofobia?

Foi uma convenção repleta de fúria — nas ruas, contra Bush, dentro do Garden, contra Kerry. Mas nenhum orador conseguiu aproximar-se na raiva contra os democratas de Zell Miller — o senador da Geórgia que é, nominalmente, membro do Partido Democrata.

A forma como Miller denunciou os seus ex-“compagnons de route” foi de uma veemência surpreendente. Como comentou um “blogger”, Miller fez o habitualmente radical Dick Cheney parecer um moderado em comparação.

É quase inexplicável o ódio que Zell desenvolveu tão rapidamente aos seus correlegionários. Não foram apenas as suas palavras; foi a forma como as pronunciou.

Durante o seu discurso, Zell parecia possesso. Não parava nem durante as enormes ovações que (frequentemente) os delegados republicanos lhe conferiam, pontuando cada uma das suas estocadas aos democratas.

Zell não sorria, não parava para respirar, não ligava ao público à sua frente, apenas atacava, atacava, atacava. Foi uma demonstração de violência verbal ímpar.

E Zell não se ficou pelo palco do Garden. Numa ronda de entrevistas televisivas após o seu discurso, repetiu a sua diatribe com a mesma ferocidade.

Nem os jornalistas escaparam à sua sanha. No programa “Hardball” na MSNBC, Zell pegou-se com o comentador Chris Matthews. Conhecido como um dos entrevistadores mais tenazes dos EUA, Matthews não é sequer particularmente “liberal”, antes pelo contrário.

Mas Zell chateou-se com Matthews, e chegou a… desafiá-lo para um duelo. Aborrecido com as perguntas do seu interlocutor, Zell disse que tinha vontade de “cancelar a entrevista”, e rematou: “Quem me dera que ainda vivessemos numa altura em que se podia desafiar as pessoas para um duelo.”

•Segurança, segurança, mas…

…mas afinal não era nada difícil a activistas anti-Bush entrar no Garden. Toda a gente era submetida a controlos de segurança draconianos, que de facto funcionaram — ninguém levou objectos perigosos para o Garden, não houve atentados.

Mas pelo menos uma dúzia de indivíduos furaram o sistema de credenciais e conseguiram entrar no Garden para perturbar a convenção. Dois deles chegaram suficientemente perto do vice-presidente Dick Cheney para lhe berrar “slogans” nos corredores do pavilhão.

Duas mulheres até conseguiram entrar no Garden durante o discurso final de George W. Bush e interromper aos berros a sua intervenção, antes de serem arrastadas (literalmente arrastadas) para fora pelos seguranças.

Mais observações sobre a convenção republicana 

•Hollywood

A maneira mais fácil de levar ao rubro os delegados republicanos – bem, há muitas maneiras fáceis de os levar ao rubro: elogiar Bush (“Four more years! Four more years!”), dizer mal dos “liberais do Massachusetts” (“buuuuuuuuh!”), mencionar os direitos das “crianças por nascer” (aborto) ou a “protecção da família” (casamento “gay”).

Mas também basta dizer “Hollywood” para os delegados entrarem numa histeria de ódio. Ironicamente, este é o partido cujo herói é Ronald Reagan, e cuja maior estrela em ascensão é Arnold Schwarzenegger; mas os republicanos têm um desdém por Hollywood que envergonharia o mais anti-americano dos críticos dos “Cahiers du Cinèma”.

Um dos momentos mais divertidos da convenção foi quando George W. Bush deu a sua alfinetada a Hollywood durante o discurso de encerramento, para uivos de gáudio na plateia do Garden — e as câmaras do pavilhão filmaram o encavacado Ron Silver, um dos (muito poucos) actores de Hollywood que apoia Bush.

•Prémio guarda-roupa

Vai para a numerosa delegação do Texas. Os texanos foram todos os dias para a convenção com roupas combinadas — um dia todos de camisa azul, outro com trajes de “cowboy” vermelhos e azuis, outro de fatos pretos, sempre, sempre, sempre com enormes chapéus Stetson, que arremessavam ao ar nos momentos mais “quentes”.

•Prémio de oratória

Para George W. Bush. O homem é um mau orador, não haja dúvidas. O próprio reconhece (com um certo orgulho) a sua batalha com a língua inglesa: “As pessoas às vezes têm de corrigir o meu inglês. Percebi que tinha um problema quando o Arnold Schwarzenegger começou a corrigir-me.”

A sua voz é algo monocórdica. Bush disfarça mal que está a ler o teleponto. Engana-se às vezes, pronuncia mal certas palavras, gagueja. Os políticos americanos costumam ser óptimos a falar em público: confiantes, eloquentes, directos. Bush é uma excepção.

Mas isso constitui para ele uma vantagem política, não uma desvantagem. As suas dificuldades retóricas são vistas pelos seus adeptos como uma demonstração de franqueza, de que é um político que fala “do coração”.

Para muitos americanos, as suas deficiências são uma qualidade, testemunho de que ele é um “straight talker”, não um político refinado e ardiloso. No Madison Square Garden, os delegados republicanos ouviam-no com uma devoção quase religiosa.

Algumas observações sobre a convenção republicana 

•As manifestações

O efeito das grandes manifestações anti-Bush será muito reduzido ou nulo. Um dos próximos posts incluirá uma entrevista com Peter Hart, observador dos “media” e co-apresnetador do programa radiofónico Counterspin, que tem um ponto de vista diferente.

Mas parece difícil que toda a fúria anti-Bush tenha produzido resultados práticos, excepto excitar a já muito excitada comunidade da esquerda nova-iorquina. Não houve grandes incidentes violentos, apesar das quase 2000 detenções, e isso foi bom para a imagem dos manifestantes.

No entanto, é improvável que mesmo a “grande marcha” de domingo impressione os eleitores indecisos no resto da América. Uma multidão de umas 200 mil pessoas parece muita gente — mas as corridas do NASCAR atraem números semelhantes todas as semanas. A América é grande demais para se comover com o espectáculo de centenas de milhares de pessoas a protestar.

As mensagens dos manifestantes eram heterogéneas, confusas e por vezes contraditórias. Além de um repúdio irado por Bush, pouco havia em comum.

Para a maioria dos americanos, os protestos de Nova Iorque terão parecido pouco mais que uma demonstração de fúria anti-Bush promovido por uma parte muito específica, e radicalizada, da nação.

•Atacar, atacar, atacar

A convenção republicana foi um festival de pancadaria no bombo da festa, John Kerry. Impressionante como a maioria dos oradores gastou mais tempo a zurzir em Kerry que a louvar George W. Bush.

Particularmente impressionante, porque Kerry é apenas um candidato; normalmente, este tipo de ataques é reservado para alguém que já está no cargo.

Ainda por cima, os democratas fizeram um esforço sobre-humano na sua convenção de Boston para não cair num discurso “negativo”. Tirando o indomitável Al Sharpton, todos os oradores democratas seguiram o “script” de moderação.

Em Nova Iorque, não. Era bater em Kerry até não poder mais. Até Rudy Giuliani, que tem reputação de moderado, atacou violentamente o candidato democrata.

•Os republicanos não sabem dançar

É verdade que as atracções musicais também não convidavam a isso. Menos fortes no mundo do “entertainment” que os democratas, as celebridades republicanas são muito série B (Arnold é a excepção, mas ele não canta, e se dança, é melhor não vermos).

O nome mais conhecido era Michael Smith – que canta o tema “I’ll be there for you”, da popular série televisiva “Friends”. Mas mesmo nas músicas mais dançáveis, os delegados republicanos confirmavam todos os preoconceitos sobre a falta de ritmo dos americanos conservadores.

Durante uma versão de “Soul Man”, ver os delegados tentar uns passos de dança no Garden era, bem, doloroso.

Sondagem: Bush, por 11 pontos 

Segundo uma sondagem da revista “Time”, realizada esta semana durante a convenção republicana, George W. Bush “deu o salto” — vai 11 pontos à frente de Kerry.

Os especialistas advertem que as sondagens durante a convenção não são fiáveis; além disso, o estudo da “Time” está completamente isolado em relação a todas as outras sondagens, que falam em “empate técnico”; ambas as campanhas esperam uma eleição muito renhida e resolvida por um punhado de votos; e ainda há a considerar que a ideia de uma diferença de onze pontos contraria todos os dados sobre um eleitorado profundamente dividido em que há pouca margem para um “salto” tão grande.

Mesmo assim, a sondagem da “Time” é um indicador que reforça a tendência ascendente de Bush nas últimas semanas. A campanha de Kerry tem razões de preocupação.

3.9.04

Táxis contra Bush 

Acabou por não ser publicado este texto sobre os taxistas contra Bush. Fica aqui para a posteridade; durante a semana da convenção, viram-se de facto bastantes “amarelos” com as luzes acesas de dia.

Táxis contra Bush

John McDonagh é um taxista nova-iorquino, e como a maior parte dos nova-iorquinos, taxistas ou não, está contra George W. Bush. McDonagh resolveu aproveitar a convenção do Partido Republicano, que começa amanhã em Nova Iorque, para protestar contra o Presidente americano.

Com esse fim, McDonagh criou a Cabbies Against Bush (“taxistas contra Bush”, CAB; a sigla forma a palavra da gíra americana para “táxi”). O propósito da CAB é mobilizar as dezenas de milhares de taxistas de Nova Iorque para, até ao fim convenção na quinta-feira, circular pela cidade com os faróis acesos de dia.
“Além disso, vamos ter cupões especiais para delegados republicanos”, disse ao PÚBLICO McDonagh. “Para passageiros que forem republicanos, vamos dar esses cupões que dão viagens gratuitas até ao aeroporto para eles poderem apanhar um avião e ir para a guerra no Iraque.”

McDonagh explica que a sua acção é legal — não é vulgar mas também não é proibido circular com os faróis acesos de dia em Nova Iorque. Também não houve problema em convencer as firmas de táxis: “Os taxistas são empreiteiros independentes, o que fazem com o táxi é com eles. De qualquer forma, falei com [proprietários de firmas] e eles também são a favor.”

Mais complicado será convencer os próprios taxistas. Há dezenas de milhares de condutores dos célebres carros amarelos, e são quase todos imigrantes que chegaram aos EUA recentemente. Alguns deles conhecem mal as ruas da cidade, e muitos falam um inglês rudimentar.

“John” não é um nome vulgar para um taxista nova-iorquino — “Mohammed”, “Ivan” ou “José” são mais comuns. Ou por não estarem motivados, ou por terem receio de se envolver em acções políticas, estes taxistas podem não querer alinhar no protesto dos faróis acesos.

“Eu e os outros taxistas mais velhos, que são cidadãos americanos, estamos a tentar convencer [os imigrantes recentes]”, diz McDonagh. “Também estamos a sensibilizar os passageiros a que peçam aos taxistas que acendam os faróis.”
E se McDonagh apanhar um passageiro republicano que não aprecie a iniciativa? “Eu cá não desligo os faróis. Acho que a maioria [dos republicanos] vai achar graça à ideia”, responde McDonagh. “Se um delegado protestar… Bom, pode queixar-se [à autoridade municipal que controla os táxis]. Mas essas queixas levam dois meses a ir a tribunal; nessa altura já eles se foram embora.”

Este blog já tem saudades 

A tirania dos horários de um jornal diário não permite fazer para já o balanço da convenção republicana — isso fica para daqui a umas horas. Por enquanto, só uma observação: as convenções à americana são muito divertidas. Apesar de todas as queixas de falta de surpresas ou conteúdo, são fenómenos fascinantes. Este blog já tem saudades da animação republicana em Nova Iorque, e democrata em Boston.

E depois da festa… 

…o desemprego. Literalmente: às três da madrugada (hora portuguesa), George W. Bush começa a fazer o seu discurso à nação. Os noctívagos com um boa ligação à Internet (ou pelo menos com uma ligação mais rápida que a vagarosa “dial up” oferecida à imprensa pela convenção republicana podem ver o discurso ao vivo aqui.

Mas poucas horas depois de Bush encerrar a convenção, pode receber más notícias que cancelem o efeito da sua intervenção em Nova Iorque. O Departamento do Trabalho dos EUA vai divulgar novas estatísticas sobre o desemprego; os analistas não esperam grande retoma no mercado laboral.

"Bush go home" 

Enquanto no Madison Square Garden se aguarda o grande discurso de encerramento da convenção, nas ruas os nova-iorquinos aproveitam o último dia para se manifestar contra Bush.

No Garden, os delegados entretêm-se com “home videos” da família Bush - primeiro com as filhas, agora com o casal. Pelo meio vão falando oradores como o general reformado Tommy Franks. Lá fora, milhares de pessoas estão nas ruas à volta do Garden.

A polícia tenta manter as coisas controladas, e com efeito o ambiente estava animado mas pacífico ao início da noite. As coisas só ameaçaram descambar com um grupo de republicanos que faziam uma contra-manifestação — com cartazes satíricos e “slogans” como “já damos uma chance à paz e levámos com o 11 de Setembro”. Mas, tirando uns berros entre manifestantes e contra-manifestantes (“Bush go home!”; “Mais quatro anos"), tudo bem.

1.9.04

Plataforma 

A “plataforma” (programa ideológico) dos republicanos em 2004 é tão conservadora que os aliados de George W. Bush têm-na praticamente escondido, para não prejudicar a imagem “moderada“ que o candidato pretende transmitir. Até o site da convenção tem o documento mais ou menos ocultado; aqui está a plataforma (link faz o download de um documento em PDF).


As gémeas são estranhas 

Quando os familiares de um candidato falam no pódio das convenções, é normal adoptarem um tom levemente cómico. Mas Jenna e Barbara Bush transformaram o seu discurso numa actuação de “stand up comedy”; claro que tudo depende dos gostos, mas não parece que elas tenham sido muito engraçadas. Uma piada sobre a avó Barbara e a série “Sex and the City”? Ainda por cima pronunciando o nome da série como “Sex IN the City”?

Aqueceu 

Terça-feira foi dia de “desobediência civil” - e como os nova-iorquinas desobedeceram, às vezes civilmente, às vezes não. O dia foi convocado por um colectivo anarquista, que apelou a manifs não autorizadas mas também não violentas.

Ontem havia mini-manifs por todo o lado em Nova Iorque, mas nem todas eram pacíficas. Acabaram mil pessoas a ir para a prisão, para o Guantanamo no Hudson.

Hoje os protestos regressaram, alguns pacíficos — como a muito impressionante “fila dos desempregos, com milhares de pessoas ao longo de vários quilómetros, empunhando “pink slips” (papéis cor-de-rosa, símbolo nos EUA de notas de despedimento).

Mas logo a seguir vieram novos confrontos, com activistas a invadirem uma sessão dos Jovens Republicanos em que participavam as filhas gémeas de Bush.





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