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6.11.04

The end 

Este blog acaba aqui. Obrigado aos leitores, particularmente aos que enviaram questões e comentários ao longo destes meses, e aos que enviaram simpáticos elogios nos últimos dias. O blog não foi actualizado tão frequentemente como devia ter sido, não foi tão exaustivo como podia, mas foi atraindo as atenções de algumas centenas de leitores por dia. A eles novamente obrigado, e até sempre.

P.S: Data das próximas eleições presidenciais americanas: 4 de Novembro de 2008.

Dos leitores: Europa e América de costas voltadas? 

Duas mensagens apresentam uma ideia muito semelhante: Jorge Barradas defende que está na hora de a Europa e a América seguirem cada uma o seu caminho:

“Chega de amizade transatlântica ou lá o que lhe queiram chamar. A maioria dos europeus não têm nada a ver com a monstruosidade do senhor Bush. Se os americanos acham que este primor de incompetência e desonestidade merece ser reeleito, que tenham o que merecem. Não nos venham chatear é a nós. A Europa vai à sua vida, com Bush não queremos nada.”

E na mesma linha, Sandro Feitais:

“Miguel Sousa Tavares escreve que os valores dos americanos mudaram e já não têm nada a ver com os nossos:

http://jornal.publico.pt/2004/11/05/EspacoPublico/O01.html

Concordo. Como ele diz, “na Europa em que nos revemos, não discriminamos os homossexuais, não colocamos o aborto na clandestinidade, não defendemos que os ricos paguem os mesmos impostos que os pobres, não defendemos a liquidação da função social do Estado, não misturamos a política com Deus, não aceitamos o sistema penal de Guantanamo, não defendemos a pena de morte e, além do mais, não invocamos nenhum mandato moral ou divino para impor estes valores aos outros”.

Esta Europa que é nossa não tem nada a ver com a América do senhor Bush. [Os resultados das eleições] são um semáforo para a Europa seguir em frente no seu caminho.”


Não é justo descrever toda a América como discriminatória dos homossexuais (o combate pelos “gay rights” tem mais visibilidade aqui que na maior parte da Europa) ou anti-aborto (aliás, o aborto é legal nos EUA, ao contrário de Portugal).

E de resto há muitos americanos que defendem um Estado secular e interventivo. Os valores da maioria dos americanos não são assim tão diferentes dos valores europeus.

Também não é justo dividir rigidamente a América entre estados “azuis” e “vermelhos”; há grandes assimetrias ideológicas dentro dos EUA, mas os estados “vermelhos” não são totalmente “vermelhos” nem os “azuis” exclusivamente azuis.

Este curioso gráfico mostra a verdadeira cor política da América — púrpura, uma mistura de vermelho e azul. Em 2004, é um púrpura mais vermelho, e por isso talvez mais desagradável a uma maioria dos europeus. Mas, como tudo, o mapa eleitoral americano também irá evoluir nos próximos anos.

Dos leitores: A esquerda e a direita, a América azul e a América vermelha 

Alexandre Varela interroga-se sobre a permanência do vermelho (republicanos) e do azul (democratas) no mapa eleitoral americano:

“ Estarei de todo equivocado, ou o facto de os candidatos concentrarem recursos e energias em alguns dos estados mais pequenos não passa de uma mera circunstância?

Existem de facto estados cuja tradição eleitoral dispensa a priori grandes preocupações, todavia, creio que seja perfeitamente admissível que um estado como a Califórnia «vire». Na verdade, o actual governador desse estado é eleito pelo Partido Republicano, certo?

Nesse caso, não me parece que a emergência dos estados indecisos tenha que ver com o virtuosismo do colégio eleitoral (que não contesto) mas sim com circunstâncias culturais, históricas, económicas.

Nada me diz que dentro de 4 anos, a imensa cidade de New York não se ache num enorme «ring» político. Assim sendo, caso o Illinois, Califórnia, Nova Iorque, Texas, Geórgia ou New Jersey deixem de se mostrar «seguros», o que será das serras?

Quanto à eleição, o povo americano decidiu legitimamente pela proposta economicamente mais vantajosa para os EUA e economicamente menos viável para o planeta. Tocqueville, Lincoln, Jefferson, por razões diferentes, certamente se orgulhariam.


É bem possível que, a médio prazo, os estados que agora são feudos democratas ou republicanos mudem de cor. Durante muitos anos, a Califórnia era um bastião republicanos; agora é dos estados mais democratas do país. O Texas, outrora um “one-party state” democrata, transformou-se em “Bush country”.

Mesmo estados que votam sistematicamente num sentido para presidenciais acabam por votar de forma diferente em eleições estaduais. O leitor notou o caso de Schwarzenegger em Sacramento, há outros — por exemplo, o governador de Nova Iorque, George Pataki, também é um republicano num estado “azul”.

Ernestina Sentieiro vê nas eleições americanas uma demonstração de que a ideologia não morreu:

“Uma lição do 2 de Novembro: mais do que nunca, ficámos a saber que há várias Américas. É injusto julgarmos todos os americanos à imagem e semelhança do cowboy Bush. Não são bem duas metades, mas aproximam-se.

Uma das coisas que a eleição tornou clara é que (na América, como em todo o Mundo) há Direita e Esquerda, ao contrário do que muitos aprendizes de ideólogos nos tentam impingir. Em traços gerais, as camadas urbanas, laborais, as mais cultas e mais pobres votam à Esquerda; as rurais, mais ricas, mais incultas, à Direita

O Iraque esteve presente e terá sido decisivo na campanha. Mas a verdadeira tragédia terá estado? Como lucidamente escreve hoje Vasco Pulido Valente, além dos mil e tal soldados americanos mortos ( e quantos feridos?) , já morreram 100 mil iraquianos, o país ficou ingovernável, espalhou-se muito mais o terrorismo, os fanáticos islamistas do Irão ficaram mais fortes, etc.

Numa palavra, a América perdeu a guerra, o Mundo democrático, se calhar, também. Alguém disse isto assim tão abertamente durante a campanha?


John Kerry criticou a guerra, criticou sobretudo a forma como Bush conduziu a guerra, mas não a deu como perdida. A maioria dos americanos provavelmente não concordaria (pelo menos por enquanto) com essa categorização.

Ainda sobre o mapa eleitoral americano, Miguel Pais de Oliveira escreve:

“Olhando para os mapas comparativos entre as eleições de 2000 e as de 2004 (por exemplo em http://www.cnn.com/ELECTION/2004/pages/results/electoral.college/index.html), verificamos que existem diferenças abissais entre os EV de cada Estado, beneficando claramente os Estados ditos republicanos (ou que pelo menos votaram GOP em 2000).

Veja-se a título de exemplo, o Texas (2000 tinha 32 EV, agora tem 34 EV), a Flórida (2000 tinha 25 EV, agora tem 27), North Carolina (tinha 14, agora têm 15) Geórgia (tinha 13, agora tem 15), Arizona (tinha 8 agora tem 10) "and so on and so on".

De acordo com as minhas contas muito elementares, as variações de EV nos diversos Estados davam logo à partida mais 10 EV aos republicanos em Estados onde a vitória estava assegurada, o que nestas eleições não era dispiciendo. Presumo que estas variações tenham a ver com o aumento da população nesses Estados e não com erros aritméticos da CNN ou qualquer outro motivo.

A minha questão é basicamente a seguinte; esta questão nunca foi levantada por ninguém? Parece-me que o novo espectro eleitoral americano, logo à partida, beneficiava claramente, George W. Bush.”


Tem o leitor toda a razão. Mas não há erro aritmético nem tramóia. Todas as décadas o peso de cada estado no colégio eleitoral é ajustado proporcionalmente à sua população, de acordo com os dados do censo.

A evolução demográfica dos EUA tem sido no sentido da transferência da população dos estados frios e industriais do Nordeste (“azuis”) para os mais solarengos do Sul e do Oeste (“vermelhos”). A mudança demográfica deu de facto uma vantagem logo à partida para Bush.

Claro, essa mudança demográfica também pode ter outras consequências. Por exemplo, estados tradicionalmente conservadores como a Carolina do Norte ou a Florida estão a tornar-se progressivamente “liberais” com o influxo de migrantes do Nordeste. Nestas eleições isso não se reflectiu ainda directamente, com ambos os estados na coluna de Bush.

Dos leitores: balanços extensos, América e Europa 

O repto lançado por este blog aos leitores foi seguido ponto por ponto por alguns, que responderam detalhadamente a cada uma das questões colocadas.

João Vasco da Gama do blog Diário Ateísta, ficou desiludido com o resultado, e faz um balanço extenso das suas razões e consequências:

“ Creio que este resultado é triste, e negativo para o povo dos EUA, e para a humanidade em geral (dada a importância dos EUA).
O resultado é triste porque:

1- Perdeu-se a oportunidade de punir a incompetência extrema de um governante. Um dos factores que motiva os governantes a serem competentes é o medo de que a população considere incompetente a sua prestação, punindo-os eleitoralmente. Se a competência de um governante tem no seu mandato tem pouco impacto nos seus resultados eleitorais, um dos mais importantes factores para o sucesso das democracias perde a sua relevância.
E porque é que considero que Bush foi um péssimo presidente? Porque:

a) A sua equipa promoveu alterações legislativas contrárias à constituição americana e às liberdade direitos e garantias mínimas de uma democracia (Patriot Act)

b) A gestão da economia por parte de Bush conseguiu ser o "ovo de colombo invertido" - crescimento económico com oscilações, mas em média, moderado; alto desemprego, alto déficit, etc... Foi considerada a pior gestão da economia dos últimos 150 anos.

c) Bush foi um péssimo diplomata. Escuso de desenvolver esta parte...

d) A segurança social, a saúde, a educação sofreram cortes consideráveis, que não evitaram o gigantesco déficit orçamental. A educação é extremamente importante para a produtividade.

e) A desonestidade ficou bem patente na mentira das ADM e da questão das torturas em Abu Ghraib e outras "irregularidades" na baía de Guantanamo. No que respeita às ADM, é possível que a equipa de Bush, baseada em informações erradas, considerasse que havia um perigo razoável de que as armas químicas existissem - mas, no mínimo, a certeza com que afirmaram a sua existência, foi desonesta. Mas os outros casos citados são exemplares a esse respeito.

f) A Investigação Científica foi controlada e manipulada. As prioridades foram trocadas. A Investigação Científica, que é o motor das economias modernas, foi atacada seriamente por esta administração, ao ponto de vários laureados pelo prémio Nobel se terem manifestado contra esta administração.

g) Bush é um mau líder. Não tem capacidade de liderança, e isso ficou bem patente na forma como a sua equipa reagiu aos diferentes problemas. A equipa mais próxima de Bush, ao ostracisar todas as vozes críticas, acabaram por ter uma série de líderes menos competentes nos diversos campos. Por essa razão, a incompetência foi gritante no pós-guerra no Iraque e em muitos outros aspectos.

2- Perdeu-se a oportunidade de ter um líder como Kerry. Kerry foi um jovem corajoso e honesto: foram também os seus valores morais elevados (além de outras características) que o permitiram ser um heroi de guerra e arriscar a sua vida para salvar as dos que estavam próximos, tornando-se um heroi de guerra. A sua atitude quando voltou foi louvável.
Kerry também é activo e competente: foi um excelente senador que liderou importantes investigações bem sucedidas. Revelou também boas capacidades de administração, antes de ser Senador (ao contrário de Bush que levou duas companhias petrolíferas á falência...).
Kerry é moderado, sendo por isso que é acusado de Flip-Flopper. Ao rever as suas posições consoante os factos e as circusntâncias, Kerry dá mostras de sensatez e razoabilidade.

3- O próximo mandato de Bush adivinha-se pior do que o primeiro. Porque:

a) Colin Powell era a figura mais moderada e razoável entre as mais conhecidas da casa branca. Não poderá exercer a sua presença moderadora, pois mostrou-se indisponível para continuar a trabalhar com Bush.

b) A equipa de Bush já não teme perder a re-eleição. Pelo contrário: foram premiados pela política radical que levaram a cabo.

c) O poder dos fundamentalistas religiosos dentro do partido Republicano aumentou com Bush. Muitos destes colocam em questão a "separação entre a igreja e o estado", e a vitória de Bush aumentou o seu poder.

d) Ao consolidar o seu poder, Bush vai poder levar a cabo políticas mais radicais.

Sou profundamente democrata, e embora discorde do sistema de colégio eleitoral que funciona nos EUA (posso escrever a contra-argumentar em relação aos quatro bons artigos em que apresentou as justificações deste sistema, a acrescentar mais alguns defeitos), sei que Bush também foi o candidato mais votado. Teve uma vitória confortável e legítima (ao contrário da anterior...)..


a) Porque é que Bush ganhou? Que factores foram decisivos?
Estou convencido que a máquina de propaganda republicana foi muito mais eficiente do que a máquina de propaganda democrata.
O facto de Bush ser mais carismático (em relação ao eleitor médio) que Kerry também ajudou.
Na Europa a maioria da população era pró-Kerry pois não esteve sujeita à propaganda (de ambas as partes) que os EUA estiveram. Se estas eleições se tivessem passado na Europa, com a mesma propaganda que lá se verificou, creio que Kerry teria ganho, mas com uma margem muito pequenina (e não com os tais 70%-80%...).

b) Quão surpreendente é a vitória de Bush?
Relativamente surpreendente. Apostei, com uns amigos, no Kerry, porque achava que era mais provável que ele ganhasse. Dizia que ele tinha 60% de hipóteses de ganhar.
Isto porque, embora as sondagens indiciassem uma votação muito próxima, eu acreditava nas análises acerca do enviesamento pró-Bush dessas sondagens (devido à subestimação dos eleitores com telemóvel, novos votantes, etc...). Creio que foi fácil acreditar nessas análises pois nunca poderia esperar que a propaganda tivesse um efeito tão poderoso em relação à avaliação da competência dos candidatos (que, como expliquei na mensagem anterior, teria desfavorecido Bush).

c) Irá Bush ser ainda mais ambicioso no seu segundo mandato ou adoptar uma política mais moderada?
Sem Colin Powell na Casa Branca, e com as políticas de Bush recompensadas eleitoralmente, creio que dificilmente serão mais moderadas. Mas também não é fácil que sejam muito mais "ambiciosas" (extremistas).

d) O que significa para a América um triunfo tão abrangente do Partido Republicano?
Devo dizer que não identifico a equipa de Bush com o Partido Repubicano. O pai de Bush, por exemplo, está mais próximo daquilo que considero ser "o espírito" do Partido Republicano. O triunfo de Bush foi também um trinfo "sobre" o Partido Republicano tradicional. Acho que este triunfo é negativo para o Partido Republicano, Para os EUA, e para o mundo.



Também Luís Cordeiro opina ponto-por-ponto, com uma visão europeia da América muito diferente da de muitos europeus:

“1. Não foi, para mim, surpresa a reeleição de Bush;

2. A ideia europeia de que Kerry seria a esperança para a paz e de que ele iria ganhar, não passou de um mero exercício de especulação da "esquerda caviar" europeia, que mais não faz do que criticar quem faz alguma coisa pelo mundo. Mesmo que Kerry tivesse ganho, ideologicamente o partido democrata está muito longe da esquerda europeia (atrevo-me a dizer que o partido democrata em alguns assuntos está bastante mais à direita do PSD).

Os europeus desinformados (como é hábito), esqueceram-se de que a nível político, todo o aparelho de poder americano está dominado pelos Republicanos. E como Pedro Ribeiro comentou, George W. Bush conseguiu para seu partido o que nenhum outro Republicano tinha conseguido até ao momento: o partido Republicano domina como nunca dominou a esfera do poder americano, daí que seria normal que Bush fosse reeleito.

3. Com tanta campanha interna (ex: Michael Moore) e externa (europeia e árabe) contra Bush, porque será, então, que Kerry não ganhou? É algo que os Europeus nunca saberão, e será a principal razão porque a Europa nunca será uma federação!

Os EUA são uma federação de estados democratas que se respeitam uns aos outros, onde a importância da democracia não reside, apenas, em Washington, Nova Iorque ou Los Angeles.

E porque o sistema eleitoral americano (muito criticado pelos europeus sem, ao certo, saberem porque foi criado desta maneira) funciona assim, o poder da democracia viu-se no Iowa (um estado sem expressão económica e onde se encontram os maiores "parolos" americanos) ou no Novo Mexico (um estado conflituoso a nível étnico).

Alguma vez Portugal irá ter [esta] importância na União Europeia?

4. Sobre Bush: vejo-o como um grande lider, um homem de coragem e um dirigente mais de acção do que de diplomacia. E creio que é o que o mundo precisa neste momento.

5. Sobre o Iraque: como sabem, para a maior parte dos Europeus os EUA foram para o Iraque para tomarem conta do petróleo. Ironia dos destinos: não existe uma única empresa americana a explorar o petróleo iraquiano (é por isso que a esquerda "caviar" deixou de falar disso - muito previsível).

Agora o discurso é de que os EUA atacaram o Iraque para evitar as especulações em torno do preço do petróleo (???). Como sabem o preço do petróleo nunca esteve tão alto nos EUA ou na Europa. Se Bush quisesse controlar o petróleo, ou o seu preço, não iria entregar aos Europeus a exploração dos poços nem iria invadir o Iraque!

6. Finalmente, gostaria de desmistificar o preconceito europeu de que os Americanos são ignorantes. Quando ouço um português a dizer uma coisa dessas dá-me vontade de rir.

Meus amigos, nós deviamos estar caladinho porque temos um taxa de analfabetismo que é uma vergonha. O ensino obrigatório nos EUA já é, há décadas, o 11º/12º ano de escolaridade enquanto que, na maior parte dos países Europeus, contam-se os anos pelos dedos.

As universidade Americanas produzem os maiores génios, quer americanos, quer jovens de outros lados do mundo (inclusivé europeus). Porque será? Porque têm um sistema de ensino que incute valores, visão e técnica (orientação prática, algo que os latinos nunca saberão o que é). Sendo a origem da educação europeia de carácter humanista (vivemos das teorias), não temos uma preparação técnica tão boa como os americanos - apostamos mais nas artes e humanidades, daí acharmos que eles são mais "burros" do que nós!

São diferentes. São capazes de ter menos conhecimentos de história universal ou de antropologia, mas são melhores que nós a nível prático (as ciências que relamente necessitam de raciocínios geniais: física, matemática, astronomia, informática, etc..), porque têm uma cultura metodológica e, nesse aspecto, nós somos muito ignorantes (à excepção de alguns países europeus).

Dos leitores: Don’t mess with Texas 

Um correspondente regular deste blog, Rogério Morais, manda-nos a sua perspectiva das eleições a partir do Texas, onde vive, com duas histórias fascinantes:

“ Dois dados interessantes sobre as eleições no Texas:

- Em Dallas County (onde eu moro), Bush ganhou apenas por 50%-49% (61-38 a nível estado), o que foi um pouco surpreendente. Nas eleições para sheriff do county ganhou uma mulher democrata, derrotando um republicano pela primeira vez em 20 anos.

- No círculo do congresso (congressional district) que inclui o rancho de Crawford, quem ganhou foi um democrata! Um dos 11 que sobreviveram à razia no Texas. Aqui passou de 15-17 (republicanos - democratas) para 21-11 (um democrata mudou para o partido republicano e ganhou a reeleição)


Uma nota curiosa sobre a nova xerife de Dallas County: Lupe Valdez não só é democrata e mulher, como é hispânica e assumidamente lésbica. O Texas não é t tão previsível como parece.

Ainda sobre o Texas, Albano Silva pergunta:

“Os americanos votam em Bush porque ele é um “cowboy” do Texas? O imaginário do “far-west” ainda é assim tão forte para os americanos?”

Bem, não será assim tão simples. Aliás, Bush não é um verdadeiro “cowboy” — nasceu no Connecticut, foi educado na Costa Leste. Mas a sua imagem tipicamente texana, um “straight talker” anti-elitista, ajudará a explicar o seu sucesso eleitoral. Bush não é bem Tom Mix nem John Wayne nem Lucky Luke, mas parte do seu apelo estará ligado à ideia mítica do “cowboy solitário” que enfrenta o mal em nome da justiça.

Dos leitores: balanços desencantados 

A nota dominante da maioria das mensagens dos leitores era desilusão, embora não surpresa, pelo triunfo eleitoral de Bush. É esse o caso de José A. Martins, do blog Briteiros:

“ Um pequeno balanço enviado no preciso momento em que Kerry telefonava a Bush para reconhecer a derrota:

O terrorismo, a guerra e a segurança nacional levaram a melhor sobre a economia e as questões sociais, apesar dos esforços de Kerry para chamar a atenção dos americanos para os problemas do emprego, da saúde e da segurança social.

A conjuntura internacional foi favorável a Bush. A tragédia de Beslan foi extremamente chocante para os americanos, sobretudo para as mães, lembrando- lhes que o terrorismo não deixou de constituir uma perigosa ameaça.

A reaparição providencial de Bin Laden, nas vésperas da eleição, deu o toque final para reforçar
este espectro do medo.

Os americanos escolheram, assim, o presidente que lhes parecia mais bem posicionado para dirigir o país em tempo de guerra nos próximos quatro anos. Bush conseguiu afastar a política interior para o segundo plano e convencer os eleitores que a guerra no Iraque fazia parte integrante da guerra contra o terrorismo.

Foi este o argumento que finalmente convenceu os indecisos.

Mas, como foi possível que uma pessoa com um percurso académico tão medíocre, sem a menor dimensão intelectual, com uma juventude atormentada por problemas de alcoolismo e com tantos falhanços nos negócios do petróleo, esteja em vias de repetir a façanha de aceder à mais alta magistratura do país mais poderoso do mundo?

O que é que terá levado este cristão evangelista e beato a este destino de novo Moisés dirigindo o seu povo na grande batalha contra as forças do mal?


Em relação à pergunta retórica final: o percurso académico não é assim tão medíocre. É verdade que Bush não se distinguiu e teve notas apenas razoáveis na sua carreira universitária, e que a sua entrada nas universidades de Yale e Harvard terá sido possível apenas graças às ligações influentes da sua família.

Mas o certo é que Bush conseguiu formar-se de Yale e Harvard — mesmo que não tenha sido com honras, os “degrees” destas instituições impõe algum respeito.

Os “desvarios de juventude” apenas ajudaram à imagem de Bush. F. Scott Fitzgerald gostava de falar na ausência de segundos actos nas vidas americanas, mas os EUA gostam de homens capazes de se reinventar, que conseguem abandonar os “maus caminhos” em direcção a uma nova vida.

Aliás, a credencial de cristão “born again” ajuda Bush a identificar-se com muitos eleitores americanos que tiveram experiências semelhantes.

Noutra mensagem, João Bernardes leva o desencanto das eleições para uma visão negra dos próprios EUA:

“ Não será tão surpreendente assim, a vitória de Bush nestas eleições frente a John Kerry.

A desilusão é enorme embora, possivelmente, essa mesma desilusão acabasse por surgir, algum tempo depois, caso Kerry, saísse vitorioso, o que seria tão surpreendente quanto o resto e parecendo esta afirmação paradoxal. Ou seja, então em que é que ficamos?

Muito simples!

A política americana em nada surpreende, uma vez sabermos em que objectivos consiste: Com deus, controlaremos tudo (in god we trust)!

Concluindo, o povo americano é nisto mesmo que acredita!

Num país em que, uma elevada percentagem populacional, julga serem os USA o único país no mundo(o resto é paisagem e uma relíquia – apesar de eles saberem que a Espanha existe) a defender valores morais elevados e onde existe um grande sentido patriótico, ou será «um grande sentido mundialista»(só pode e…não queremos confundir isso com “senhores do mundo” – ou será?), num país que é gastronomicamente orientado pela boa cozinha McDonalds(que decidiu alargar os menus aos pratos de dieta, ou o mais parecido com isso), num país cujo Wall Street controla economicamente todas as restantes praças, num país que vende armas para os países contra os quais luta(em terra de cegos quem tem um olho é rei), num país de oportunidades para uma vida que conhecemos como sendo a única e há que aproveitá-la, porque os outros não dão tantas oportunidades para esta vida que conhecemos como sendo única, num país sobre o qual muito mais coisas deste tipo poderiam ser ditas e nenhuma delas bateria certo uma com outra(e na realidade não quero dizer com isto que a Europa vá no bom caminho, não falando dos outros), não seria de esperar um resultado diferente.

Em Kerry estava depositada uma ligeira esperança política que, em abono da verdade(e sejamos realistas, porque a América será sempre a América) seria pouco provável ver realizável na prática. Julgo que os americanos entenderam isso de uma forma mais realista que qualquer europeu esperançado no que quer que fosse, porque não se compreende como é que é possível voltar atrás depois das decisões que foram tomadas por Bush ao invadir o Iraque com um ene de promessas que se revelaram na prática, bastante mais complicadas, senão impossíveis, de concretizar(se a situação já é por si ridícula, mais ridícula seria então).

Quero dizer com isto que, entre um que diz que faz(Bush), e que eleva, contudo, o sentido patriótico ao não recuar nas suas decisões e, numa situação que sabemos debilitada, sobre um ponto de vista psicológico(às vezes custa-me a crer nestas coisas) de um povo(e estas são as mesmas razões que levam os Árabes a lutar pelo que é deles) e, outro(Kerry) que diz que vai fazer e aquilo que diz ir fazer não é, sobre o ponto de vista do orgulho nacional, de nos orgulharmos(que é recuar), e… mais! Sabemos que aquilo que ele diz ir fazer não vai poder cumprir, então…em quem votar? Em quem assume, não assumindo, os disparates que já fez(até porque todo aquele país já é um disparate pegado).

Felizmente que não temos estes disparates para resolver…temos outros… mais leves, mas temos.

A realidade, também, é que a vontade dos governos e das populações dos diversos países europeus, exposta muito provavelmente na imprensa norte americana, funcionou adversamente no espírito patriótico americano que vê a Europa com algum despudor, ou seja, falando em bom americano: “fuck the europeans, i’m proud to be an american!”


Pelo contrário, Carlos Gomes olha, com algum humor, para um lado positivo dos resultados mesmo para quem “torcia” por Kerry.

“ Em relação à vitória de Bush, apesar de ter preferido uma vitória do Kerry, como a maior parte dos europeus, é indiscutível o que por si só é positivo.

Por um lado, revela que a democracia está activa, basta vermos o nível de "turnout", provando que se incentivadas e lhes mostrar que cada voto conta as pessoas votam, mesmo que tenham que esperar várias horas.

A vitória de Bush também prova que se "o lado positivo da democracia é que qualquer um pode chegar a presidente, o lado negativo é que qualquer um pode chegar a presidente!"


De volta às perspectivas negativas, José Alberto Oliveira antevê, como fez em campanha Teresa Heinz Kerry, “mais quatro anos de Inferno”:

“Que mais nos irá acontecer? Acho que todos já vimos o que será o mundo com este segundo mandato do político comediante George W. Bush!

Mais umas paródias e anedotas à mistura com umas dislexias linguísticas irão invadir o mundo! Seremos novamente atacados pelas reais armas de “hilariação” maciças: Os já famosos “bushismos” que fazem elevar audiências dos talk shows! Será agora ainda mais exasperante para todo mundo ouvir por mais quatro anos tais “calinadas”!

Excepto para todos aqueles que, vá se lá saber porque motivos, o reelegeram! Só nos resta dizer: God save América!”


David Santiago, que tem o blog Galeria Privada, coloca a mesma questão que muitos democratas se colocam:

“ Para não haver enganos nem interpretações erradas, digo desde já que pertenço à enorme família de desiludidos com os resultados das eleições de Terça-feira.

Não tanto pela derrota de Jonh Kerry, que nunca mostrou potencial ou algo de inaudito, mas muito mais pela vitória de Bush que espero não pôr irreversivelmente em perigo o mundo em que vivemos, tanto mais que saiu com a sua liderança extremamente reforçada e com as suas anteriores políticas apoiadas.

Como todos os desesperados por mandar Bush de volta ao Texas, acompanhei as eleições democratas para a escolha do seu candidato. A certa altura estava convencido que a América dispunha de alguém capaz de arrastar massas, inovador, activo e competente: Howard Dean.

Comentários menos felizes, discursos menos pensados, tudo isso levou à sua desistência. Como não estou enquadrado no ambiente americano, a minha pergunta é a seguinte: Teria sido Howard Dean uma opção mais viável que Kerry? E seria ele a escolha mais acertada nesta América polarizada?”


Qualquer questão do género “o que aconteceria se?” cai no reino da especulação, e é difícil dar-lhe uma resposta totalmente segura. Mas é provável que Dean não tivesse feito melhor que Kerry.

Dificilmente Howard Dean teria tido um resultado melhor que Kerry. Dean estava conotado com a esquerda do Partido Democrata; os eleitores das primárias acharam que ele era demasiado à esquerda para poder derrotar Bush a nível nacional, e por isso preferiram o mais centrista Kerry.

Olhando para os resultados globais de terça-feira, os eleitores das primárias provavelmente tinham razão. Afinal, não foi só nas presidenciais que os republicanos ganharam; em eleições para o Congresso e em inúmeros referendos, a direita levou a melhor.

Num eleitorado que parece ter virado à direita, seria improvável que Dean vingasse.

Dos leitores: vozes da América 

Dos últimos comentários enviados pelos leitores, dois vieram de cidadãos dos EUA. Um deles de Adalino Cabral, um veterano de guerra luso-americano, que apela à unidade:

“As eleições já terminaram. Isto é uma democracia e a maioria venceu, 51% pró-Bush. Pois, ele está de parabéns!
Cerca de 80% da Europa esperava uma vitória democrata - Kerry-Edwards. Embora os votos europeus não contem oficialmente, ficamos muito sensibilizados com o calor, bondade e apoio de milhões de gente bondosa. Torna-se importantíssimo, agora, trabalharmos juntos durante os proximos quatro anos--tanto os democratas como os republicanos. A UNIÃO FAZ A FORÇA!”


David Ellison, um americano do estado de Washington, escreveu em português (bastante bom para um “english speaker”, aqui em versão corrigida) a explicar porque votou Bush:

“ Votei ontem no meu [círculo eleitoral] normal, Alki West, Seattle, e votei em Bush, Dino Rossi, e Carol Cassidy contra Jim
McDermott. Foi fácil, O Bush tem um conceito completo do perigo que o nosso país [enfrenta].”


Ellison aconselha ainda este link do National Review para explicar a sua opção.

Uma nota: este leitor votou “straight ticket” republicano no seu estado de Washington. Carol Cassidy candidatava-se contra o congressista democrata McDermott; Dino Rossi era o candidato republicano a governador do estado, numa corrida muito interessante — uma das únicas de terça-feira que teve de ir a prolongamento.

Últimas notícias 

Últimas notas sobre as eleições, antes de este blog encerrar a sua existência com os comentários dos leitores:

—Bush ganhou mesmo no Iowa

—John Edwards já pensa em 2008; mas antes disso, a sua preocupação imediata é pessoal — a mulher, Elizabeth tem cancro da mama.

—outra hipótese para 2008: Hillary Clinton, que os apostadores já põem como favorita (e os apostadores foram os previsores mais fiáveis do triunfo de Bush este ano).

—lembram-se da ideia do jornal inglês "The Guardian" destinada a influenciar as eleições americnaans no Ohio? Correu mal: o município do Ohio para que o “Guardian” pediu aos seus leitores que escrevessem, e onde Gore ganhara em 2000, deu o triunfo a Bush este ano.

Fraude! Sabotagem! 

Este blog ficou surpreendido pela forma calma e resignada como os democratas aceitaram a sua derrota. Sim, a margem foi concludente, mas depois de tanto tempo de guerra aberta contra Bush, de acusações sem quartel de democratas a republicanos e vice-versa, de tantas preocupações sobre a maquinaria eleitoral… Acabou por ser surpreendente que quase não se falasse em fraudes depois de Kerry ter admitido a derrota.

É certo que alguns dentro do partido — os líderes negros, que se sentiram mais prejudicados pelo processo na florida em 2000, e segundo alguns relatos o próprio “vice” John Edwards — queriam que Kerry continuasse a lutar e não concedesse a derrota antes de os “votos provisórios” no Ohio estarem todos contados. Mas Kerry rendeu-se às evidências, e acabou por preferir evitar uma nova vergonha internacional que dividiria ainda mais a nação.

E contudo… Há quem fale em fraude. Vozes baixinhas, mas que poderão ganhar peso com o passar do tempo. A eleição de 2004 pode entrar para a galeria de mitos da Internet (Elvis vive! O homem nunca aterrou na Lua!) e pode mesmo haver quem lance uma investigação profunda à eleição.

Por agora, dois casos: um erro mecânico deu mais quatro mil votos a Bush num círculo do Ohio. Daqui aos 150 mil que deram a margem de vitória a Bush vai muita distância, mas é um ponto de partida para quem quiser contestar a legitimidade do triunfo.

Do outro lado, Dick Morris, o “Karl Rove de Bill Clinton” caído em desgraça, tem um olhar conspiratorial para o fracasso das sondagens à boca das urnas, que deram (erradamente) vantagem a Kerry; Morris fala em “sabotagem”, concebida para desanimar os apoiantes de Bush nos estados do Oeste, e evitar que eles votassem.

5.11.04

Estados de espírito 

O estado de espírito dos democratas: mais triste que zangado. O estado de espírito dos republicanos: mais conciliatório que triunfalista.

Sobretudo do lado dos democratas, há muito daquilo que os americanos chamam “monday morning quarterbacking”; o que é que Kerry podia ter feito melhor? Como é que a estratégia podia ter sido diferente?

Há um enorme debate a desenvolver-se dentro do partido sobre que direcção os democratas devem tomar no futuro. E, claro, já há especulação para 2008: Hillary? Edwards?

E o estado de espírito dos leitores: muito interessante. Amanhã e sábado serão publicadas as muitas mensagens dos leitores sobre o desenlace destas eleições. Até já.

Ainda falta... 

...o Iowa. Os últimos dos “indecisos” não afectam a eleição, e o seu resultado é académico. Mas o Novo México caiu para Bush, solidificando a mancha vermelha que domina o centro do mapa eleitoral americano. Resta o Iowa; problemas e atrasos na contagem fizeram deste o último estado em que o vencedor será conseguido. Deverá ser Bush, fazendo do Iowa o segundo estado em que o Presidente perdeu em 2000 mas ganhou em 2004. O único estado que seguiu o caminho inverso: o New Hampshire, no Nordeste, consolidando o “azul” na Nova Inglaterra.


Porque falharam as projecções 

Houve acusações de incompetência e até teorias da conspiração, mas o que é certo é que as sondagens à boca das urnas falharam rotundamente. As projecções extrapoladas a partir delas deram vitórias a Kerry, que não se confirmaram. A melhor explicação para o fenómeno até agora veio de um “pollster” que disse ao “Washington Post”: “As sondagens à boca das urnas medem os votos das pessoas que vão às urnas de manhã. Quem vem às urnas de manhã é quem está mais zangado. Este ano, era os adversários de Bush que estavam mais zangados.”

Ou seja, pelo meio-dia provavelmente Kerry iria à frente; foi da parte da tarde que chegou o voto republicano.

Chamem-lhe burro, chamem 

Na Europa e nos EUA, grande parte da contestação a George W. Bush assume a forma de um desprezo pelas suas qualidades intelectuais. Mas a verdade é que Bush, no espaço de uma década, construiu a mais notável carreira política do século XXI. Conseguiu ser reeleito para a presidência, com mais votos que qualquer outro candidato na história dos EUA; e mantém o controlo do Congresso, garantindo um poder invulgar no sistema americano para os próximos quatro anos; criou uma hegemonia republicana que poderá ter consequências duradouras no seu país. E ele é que é burro?

O mau perdedor 

Uma das poucas boas notícias para o Partido Democrata na terça-feira foi a vitória de Barack Obama nas eleições para o Senado no Illinois. Como se esperava, Obama obteve um triunfo folgado e tornou-se numa das (poucas) estrelas em ascensão do partido.

O seu adversário, o controverso Alan Keyes, não aceitou bem a derrota. Nem sequer fez o tradicional telefonema reconhecendo a vitória do rival. Keyes culpou os “media” por ter perdido, e descreveu Obama como um “socialista” que representa um “mal cultural” que vai “destruir” a América.


3.11.04

Aos leitores 

Este blog tinha data de validade, e extingue-se este fim-de-semana. Até lá, nos próximos dias, teremos o tal “post-mortem” das eleições. Aguardam-se também reacções dos leitores.

Porque é que Bush ganhou? Que factores foram decisivos? Quão surpreendente é a vitória de Bush? O que falhou na campanha de Kerry? Irá Bush ser ainda mais ambicioso no seu segundo mandato ou adoptar uma política mais moderada? O que significa para a América um triunfo tão abrangente do Partido Republicano? Respostas para presidenciaiseua@yahoo.com . Mais para o fim da semana, quando este blog tiver um pouco mais de tempo livre, as opiniões dos leitores serão publicadas aqui.

Kerry vai falar 

Às seis da tarde portuguesas, está previsto o discurso final de John Kerry. O candidato democrata vai reconhecer a sua derrota.

Actualização: Kerry ainda não saiu de sua casa para discursar no Faneuil Hall de Boston. Está atrasado, mas deve falar durante a próxima hora.

Está a acabar 

Bom dia: as eleições presidenciais americanas estão resolvidas. A CNN relata que John Kerry telefonou esta manhã a George W. Bush, dando-lhe os parabéns pela vitória nas eleições. Os democratas desistiram da quimera dos votos provisórios no Ohio; é uma vitória de Bush a toda a linha, uma vitória retumbante a todos os níveis.

Ainda hoje, Kerry deve fazer o seu discurso de derrota; Bush fará o discurso de vitória.

Este blog não deverá ser actualizado muitas mais vezes hoje — para a imprensa, esta vai ser uma manhã ocupada. Mais para o fim da semana, um post-mortem desta eleição: porque ganhou Bush, quais as consequências desta vitória na política americana, o que esperar do segundo mandato Bush.

Entretanto, são benvindos os comentários dos leitores ao endereço habitual: presidenciaiseua@yahoo.com

É Bush - talvez 

Algumas notas desta noite eleitoral. Pede-se compreensão aos leitores — a noite foi muito longa, a escrita pode não ser muito lúcida.

—Ganhou Bush. Ou talvez não. À hora em que este post é escrito, faltam apurar alguns estados. Kerry precisa de ganhar o Ohio. Vai 100 mil votos atrás. Não faltam contar muitos mais. Kerry ainda pode contar com o provisional voting e com o voto no correio; realisticamente, não parece haver grandes hipóteses de uma reviravolta. O processo pode arrastar-se. As eleições ainda não acabaram.

—Mas no voto absoluto, já há um vencedor claro: e é uma vitória impressionante de Bush. Entre três a quatro milhões de votos mais que Kerry.

-Venham os advogados. Não houve (ainda) muitas alegações de fraudes nem irregularidades, mas pode haver ainda batalhas legais, especialmente no Ohio e no Iowa.

-em Boston, depois da meia-noite, no comício democrata, a tristeza era pesadíssima. John Edwards apareceu às duas e meia, prometeu que todos os votos serão contados. Mas o sentimento de derrota era claro.

-A abstenção: aparentemente o turnout foi muito alto, talvez um recorde, mas não beneficiou Kerry, pelo contrário. Dado muito interessante: os mais jovens, apesar de P. Diddy e do Vote or Die, não terão votado mais que em 2000. Não foi com novos eleitores que a abstenção baixou.

-votou-se exactamente da mesma maneira: os estados azuis ficaram azuis, os vermelhos ficaram vermelhos. Só o New Hampshire e (talvez) o Novo México viraram. Quatro anos e ficou tudo na mesma.

—Porque ganhou Bush? A vantagem do detentor do cargo, o facto de um Presidente de guerra ser sempre reeleito, os efeitos das contradições do Kerry sobre o Iraque, o efeito negativo para o Kerry dos anúncios dos swift boat vets?

-os factores que não decidiram: a baixa da abstenção não ajudou Kerry, ganhar os debates também não, os indices baixos de popularidade do Bush não o prejudicaram.

- As projecções foram um fiasco total; a meio da tarde, a Internet estava cheia de projecções que davam todos os swing states ao Kerry. Os comentadores republicanos estavam consternados, e os democratas já pareciam cantar vitória. Afinal, as projecções estavam todas mal. A Zogby em particular saiu-se muito mal — a meio da tarde avançou uma projecção que dava uma vitória enorme ao Kerry no colégia eleitoral.
As TV foram muito cautelosas — embora a Fox News tenha sido a primeira a dar, relativamente cedo, o Ohio para o Bush.

-Nader: irrelevante

-minorias: os negros ficaram com os democratas em números semelhantes de há quatro anos, os hispânicos votaram (aparentemente) mais Bush.

-o Congresso: é um triunfo para o Partido Republicano tão ou mais importante que a manutenção de Bush na Casa Branca. Uma vitória a toda a linha e de profundas repercussões. Não se aplicou a tese do “não pôr todos os ovos no mesmo cesto”. Os republicanos:

-mantêm e ampliam as maiorias
-conquistam de vez o Sul, e varrem os democratas do Texas
-conseguem novamente aumentar a votação apesar de o partido do Presidente que se recandidata tradicionalmente perder votos
-Tom Daschle, o líder democrata no Senado e maior alvo republicano, pode ter perdido a sua reeleição
-os republicanos ficam mais perto dos 60 votos no Senado - o número mágico para fazer passar legislação de vulto
-o país está mais republicano, muito raro um domínio tão grande na política americana. São dez anos de domínio republicano no Congresso, “and counting”.


-Por contrapartida, enorme derrota dos democratas: a única coisa positiva da noite foi a vitória de Barack Obama (já esperada). O partido vai ter de fazer imenso soul-searching e de descobrir uma nova direcção. É uma crise incomensurável para os democratas.

-os referendos do casamento gay: mais um triunfo a toda a linha dos republicanos, em todos os 11 estados em que ia às urnas, o casamento gay foi banido com emendas constitucionais, em quase todo o lado por enormes margens.

-E agora Bush? Conquistou (talvez) a Casa Branca, com uma nova legitimidade. Desta vez, parece que ganhou, e que ganhou com mais votos. Tem ainda o Congresso ao seu lado. Tem uma concentração de poder rara na política americana. O que é que ele vai fazer com ela?

Actualização - too close to call 

As projecções estavam erradas. As vitórias projectadas para Kerry não se confirmaram. Kerry ganhou a Pensilvânia, mas Bush parece próximo de conquistar a Florida. Ainda não se sabe quem ganha. Os democratas começaram a noite animados, mas a chuva e uma aparente reviravolta a favor de Bush esfriaram o seu optimismo. O Ohio, e os quatro estados do Midwest, vão decidir tudo.

Too close to call, como há quatro anos. Mas desta vez deverá haver Presidente antes de o Sol nascer (bem, antes de o Sol nascer em Boston, pelo menos). O próximo post já terá (talvez, talvez, talvez não) o nome do próximo Presidente dos EUA.

Primeiros sinais 

As televisões não arriscam projecções. Mas há sites na Internet que o fazem. Kerry parece favorecido nos principais "swing states". Isso não significa nada ainda — vai ser uma longa noite. Mas, pelo menos a partir de Boston, os democratas parecem mais confiantes.

2.11.04

Live blogging de Boston (ou talvez não) 

Este blog desloca-se a Boston para o dia das eleições, para assistir à festa de vitória/derrota/empate (riscar o que não interessa) de John Kerry.

Dependendo da rede de wi-fi junto ao comício de vitória/derrota/empate dos democratas, haverá aqui “live blogging” de Boston.

Quem queira seguir a evolução da noite eleitoral americana tem de se preparar para uma noite longa — que pode durar 36 dias, se tudo correr mal, como há quatro anos.

Na Internet, o lugar ideal para seguir as eleições é o Última Hora do Público.pt, cuja equipa vai atravessar a madrugada para anunciar quem é o novo Presidente americano (ou talvez não, talvez sejam precisos 36 dias, ai ai).

Na Internet à americana, haverá milhares e milhares de sites para seguir o anúncio dos resultados. Eis dois dos mais óbvios: o site da CNN e o fórum de chat ao vivo com o comentador do “New York Times” Frank Bruni.

Então até Boston; esperemos que o próximo post deste blog já traga o nome do vencedor.

Halloween na segunda-feira 

Foi provavelmente inspiração de Halloween. Vários bloggers da Florida (mas onde havia de ser?) contam a história de um truque curioso. Alguns activistas, aparentemente republicanos, mascararam-se de democratas, e levaram cartazes com “slogans” pró-“gay“ para a porta de uma igreja negra.

Os “slogans” sugeriam que Kerry favorece o casamento “gay” e a adopção por casais homossexuais. O truque, se for verdadeira a história, é levar os afro-americanos (um eleitorado esmagadoramente democrata) a não votar — os negros em geral votam democrata mas têm posições conservoras em temas “sociais” como a homossexualidade. O relato, com fotografias, está em vários blogs.

Dos leitores: do Alasca, um aviso sobre os Washington Redskins 

Provando que há portugueses em todo o lado, Hugo Oliveira escreve do mais remoto dos Estados Unidos, o Alasca:

“Ainda sobre métodos de previsão menos ortodoxos, um acrescento interessante. Ontem estive a ver o [jogo de futebol americano] Packers-Redskins
-
Desde 1936, quando os Redskins vencem o ultimo jogo antes das eleições, o Presidente é reeleito; quando perdem ou empatam, ganha o [adversário]. Ontem perderam. Mas com curiosos requintes: a menos de dois minutos do fim [os Redskins] marcaram - para, de seguida, no meio da maior confusão, os árbitros anularem o [ensaio]. Acabaram por vencer os Packers. Assustador, hein?”


É um método de previsão que não falhou nos últimos 68 anos: o resultado nas presidenciais do partido no poder é igual ao resultado dos obtido pelos Washington Redskins no domingo anterior ao dia das eleições.

Ou seja, Kerry sai beneficiado. Na tertúlia do café onde este blog vai nas manhãs de segunda-feira, fala-se sempre dos resultados da NFL no dia anterior. Normalmente do que aconteceu às equipas de Nova Iorque, os Giants e os Jets; mas ontem a conversa era sobre os Green Bay Packers e os Washington Redskins.

“Kerry tem isto ganho, os Redskins perderam e nunca falha: quem está no poder também perde se eles perderem”, dizia um. “O Kerry fica a dever a eleição ao Brett Favre [“quarterback” e grande estrela dos Packers]. Vai ter de o nomear para alguma coisa. Secretário da Defesa!”, dizia outro. “Não, isso não pode ser [a posição de Favre é atacante]. Vice-presidente.”

Tal como o leitor do Alasca, a tertúlia reparou no facto de o jogo Packers-Redskins se ter resolvido numa controversa decisão arbitral nos últimos minutos do jogo. E também viram nisso um augúrio para as eleições: uma batalha muito renhida que só é resolvida no meio de muita celeuma.

Kerry tem ainda outro bom presságio vindo do mundo do desporto: a vitória dos Boston Red Sox na World Series (a curiosa forma como os americanos designam a sua final do campeonato — nacional — de basebol).

Há 86 anos que os Sox não ganhavam — mais que as piores travessias do deserto de Porto, Sporting e Benfica todas juntas. Ora, um dos mais célebres adeptos dos Sox é John Kerry, que se apressou a associar o triunfo da equipa de Boston às suas possibilidades eleitorais.

Mas outro indicador favorece Bush: a venda de máscaras de Halloween. Costuma ganhar o candidato de cujo rosto se vendam mais máscaras, e este fim-de-semana havia mais americanos mascarados de Bush que de Kerry. Hélas, até nestas Cassandras ad-hoc há um empate.

De volta ao mail de Hugo Oliveira:

“ Entretanto, ouvido de um republicano: "my surprise is not that kerry polled before speaking on the Bin Laden tape, my surprise is he didn't poll the french!!!"

Por aqui, parece cada vez mais claro que a menina Murkowski vai acabar por ganhar. Malgré tout, as fidelidades... O que, a partida, irá assegurar o Senado para o GOP. Tendo eu razão nisto e os Redskins naquilo, isto ainda vai acabar bem...”


Lisa Murkowski foi nomeada em 2002 para completar o mandato do Senado de Frank Murkowski, que entretanto foi eleito Governador do Alaska.

Lisa é filha de Frank, e ambos são republicanos. A ideia de o pai nomear a filha para lhe suceder desagradou a muita gente. Como Hugo Oliveira escreve, é provável que Lisa Murkowski consiga mesmo assim ser eleita, o que será um triunfo importante para o Partido Republicano manter o controlo do Senado.

Mas o processo deu azo também a um “referendo do nepotismo”; amanhã, os eleitores do Alasca pronunciam-se num referendo em que é proposta legislação para evitar que uma situação destas se repita.

Chegou o dia 

É amanhã, ou para quem viva na Europa, já hoje. As sondagens nada revelam excepto que será uma eleiçaõ extraordinariamente renhida. Esperemos que se consiga apurar rapidamente um vencedor.

Os votos dos mortos 

Uma consequência interessante do “early voting” e do voto postal: os mortos também votam. As medidas para impedir “engarrafamentos” nas urnas, para garantir que todos podem votar, e para combater a abstenção, resultaram no “early voting” (mesas de voto que abriram mais cedo, algumas já funcionam há um mês) e no voto por correio (muito usado em alguns estados, incluindo o Oregon, onde é o único método).

Ora, em eleições à europeia, também é teoricamente possível os mortos votarem; um eleitor pode depositar o seu boletim, sair da sala de voto e ser fulminado por um ataque cardíaco. Mas nas eleições americanas, a quantidade de casos de pessoas que morrem antes do dia das eleições mas já depositaram o seu voto é maior. E o problema é que alguns dos votos vindos do além são contados, outros não.

1.11.04

Indecisos e mobilização 

Dois factores decisivos nas eleições de amanhã: a mobilização e os eleitores indecisos.

Como os indecisos são poucos, a mobilização é a chave. A máquina partidária que conseguir levar mais dos seus eleitores às urnas irá triunfar.

Mas os indecisos também são importantes. E votam em quem? “Em circunstâncias normais, os indecisos votam contra um Presidente em funções”, disse ao “Washington Post” o especialista em sondagens Steve Mitchell.

Mas Mitchell acrescentou de imediato um dos grandes “clichés” desta campanha: “Estas não são circunstâncias normais.”

Ou seja, não se sabe se os indecisos vão para Kerry ou para Bush. O site Mystery Pollster tem excelentes artigos sobre a questão dos indecisos.

Em defesa do colégio eleitoral V: O futuro 

Então e se houver outra vez discrepâncias entre o voto nacional e o voto no colégio eleitoral? Será o sistema abolido?

Numa palavra, não.

As instituições políticas dos EUA são muito antigas. Os americanos são muito relutantes em alterá-las. O colégio eleitoral é uma herança dos fundadores da nação. Está descrito expressamente na Constituição.

É muito difícil mudar a Constituição americana. Este notável documento, claro e conciso, só foi alterado pouco mais de uma dúzia de vezes desde o início do século XIX.

Para alterar o sistema do colégio eleitoral, seria preciso que uma maioria dos 50 estados americanos estivesse disposto a fazê-lo. Os estados mais pequenos, receosos da diluição da sua influência, não irão aceder em mudar a Constituição.

É plausível que nos próximos dias, como em 2000, o colégio eleitoral volte a estar na berlinda. Não é provável que em 2008 os americanos escolham o seu Presidente de outra maneira. Esperemos apenas que desta vez não haja nenhum estado em que, como na Florida há quatro anos, o Presidente se decidiu por 0,01 por cento dos votos expressos.

Em defesa do colégio eleitoral IV: Mas então e se ganha o que tem menos votos 

É completamente contra-natura para o espírito democrático a ideia de não ganhar quem tem mais votos. E, repita-se, isso pode bem acontecer este ano outra vez.

Mas é preciso notar que, se o sistema fosse diferente, o resultado também poderia ser diferente. Ou seja: se não houvesse colégio eleitoral em 2000, não é garantido que Al Gore teria mais votos que George W. Bush.

A campanha teria sido conduzida de outra forma; em vez de concentrar todos os seus recursos para obter mais um punhado de votos em meia dúzia de estados indecisos, Bush teria tentado apelar ao maior número possível de eleitores a nível nacional.

Claro, é bem possível que com outro sistema Gore tivesse ganho na mesma. Mas as regras do “jogo” são estas; o objectivo não é ter mais votos em termos absolutos, é ganhar mais votos no colégio eleitoral.

Isso não diminiu compreensível indignação dos apoiantes de uma candidato que teve mais votos e não vai para a Casa. Mas não tira legitimidade à vitória do candidato que teve menos votos mas conseguiu ganhar o “jogo”.

Em defesa do colégio eleitoral III: E os terceiros partidos?  

Uma das críticas mais frequentes ao colégio eleitoral é que o sistema impossibilita o aparecimento de candidatos à parte do monopólio dos dois grandes partidos. E, com efeito, há século e meio que só democratas ou republicanos são eleitos para a Casa Branca, apesar de vários independentes ou terceiros partidos terem obtido votações robustas.

Mas o sistema não é tão monolítico como parece. Os partidos americanos não são como os europeus; a sua hierarquia não é rígida, a máquina partidária é altamente descentralizada, e tanto democratas como republicanos são coligações de interesses muito diversificados.

O pluralismo é menor que nos sistemas políticos europeus; mas convém lembrar que não há só dois candidatos. Bush não teve de enfrentar adversários nas primárias, mas Kerry teve de defrontar rivais democratas que representavam um espectro muito alargada de posições políticas.

A vantagem adicional de ter um sistema de dois partidos é a criação de mandatos sólidos. Não há nos EUA a experiência europeia de governos de coligação fraccionários e instáveis.

Ao mesmo tempo, o poder do Presidente é fortemente controlado pelo Congresso. Até quando Casa Branca e Congresso têm a mesma cor política (como agora), o poder do Presidente não é absoluto.

Em defesa do colégio eleitoral II: A cidade e as serras 

Um resultado óbvio do colégio eleitoral é que os candidatos gastam o seu tempo e recursos de campanha num punhado de estados indecisos, e não nos grandes centros populacionais.

Os três maiores dos Estados Unidos (Califórnia, Texas, Nova Iorque) foram praticamente ignorados pelas duas campanhas; os candidatos só lá foram para ganhar atenção dos “media” nacionais e para angariar fundos.

Isso é porque Nova Iorque e Califórnia são estados “seguros” para os democratas, e o Texas é garantido para os republicanos. Em vez disso, Bush e Kerry andaram pelos mais pequenos Florida, Ohio e Pensilvânia, ou pelos ainda mais pequenos Iowa ou New Hampshire.

Isso agradaria aos fundadores da nação. Se o sistema fosse meramente maioritário, os candidatos tenderiam a concentrar-se nos estados maiores, ignorando os menos populosos. Isso contradiz o princípio básico dos EUA — que não são um país unificado como Portugal mas sim uma república federal.

Mais: se ganhasse quem tem mais votos, logicamente os candidatos investiriam mais no apelo aos eleitores dos grandes centros urbanos onde se concentram mais pessoas. Ou seja, em todas as eleições os candidatos falariam essencialmente para os habitantes de Nova Iorque, Chicago, Los Angeles e Houston.

Assim, a cada ciclo eleitoral os “swing states” mudam ligeiramente, os candidatos têm de falar para um leque mais alargado e diversificado de eleitorados, e têm de se dirigir não apenas às grandes metrópoles mas também às zonas rurais — há um equilíbrio entre as “cidades” e as “serras”.

A política americana mudaria radicalmente num sistema “um homem, um voto”. As políticas dos candidatos estariam mais viradas para os interesses dos habitantes das grandes cidades que para as aspirações das zonas rurais. Se isso seria bom ou mau, depende da opinião de cada um (ou do sítio onde se vive).

Em defesa do colégio eleitoral I: A intenção dos fundadores 

É amanhã. Os americanos vão votar, e vão escolher um novo Presidente. O resultado pode não se saber imediatamente. É possível que o processo de apuramento do vencedor se arraste por vários dias, ou até semana, como há quatro anos aconteceu por causa da trapalhada na Florida.

Também é possível que, como em 2000 o candidato eleito não seja o que tem mais votos, por causa do sistema do colégio eleitoral. Se isso acontecer, a América ficará ainda mais polarizada.

E voltará a haver apelos a abolir o colégio eleitoral, e adoptar um sistema mais simples — ganha quem tem mais votos.

O colégio eleitoral não é contudo um sistema tão absurdo como parece. Há argumentos para justificar a sua existência.

Os fundadores dos Estados Unidos conceberam o colégio eleitoral como mecanismo de impedir que os estados mais populosos tiranizassem os outros.

Havia uma preocupação especial em relação à Virgínia — o estado de George Washington, que na altura tinha uma população desproporcionalmente grande em relação às outras 12 ex-colónias britânicas.

Também havia o receio de sobrevalorizar o poder dos maiores centros urbanos em relação às zonas rurais.

Um empate 

As sondagens não ajudam. Está tudo empatado. Quer olhando para as sondagens a nível nacional, para as sondagens nos “swing states” ou para as computações do voto no colégio eleitoral, tudo está dentro da margem de erros das sondagens entre Bush e Kerry.

É possível que apareçam sondagens de última hora com um retrato mais concludente da situação — mas não é provável. Esta vai ser, como a de 2000, uma das eleições mais renhidas de sempre.

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