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30.10.04

Nós sabemos onde eles vivem 

A mais importante das corridas ao Senado ocorre no bucólico Dakota do Sul. O líder democrata no Senado, Tom Daschle, é um alvo privilegiado dos republicanos, que investiram rios de dinheiro para garantir o triunfo do seu candidato, John Thune.

Daschle também tem muitos financiamentos, e esta será a corrida mais cara ao Senado deste ano — e tem um resultado imprevisível.

É uma ironia curiosa que seja no pouco povoado Dakota do Sul (população: 700 mil pessoas, das quais menos de metade irão votar) que se trave esta batalha. E se os métodos de campanha são sofisticados em todos os EUA, neste estado de população reduzida a sofisticação atingiu níveis inéditos: elementos da campanha de Daschle afirmam ter identificado todos os 10 mil eleitores ainda indecisos — e acrescenta que até sabem os nomes de cada um! (ver o antepenúltimo parágrafo da notícia).







Acabou a corrida do dinheiro 

Na América não há a tradição do “dia de reflexão”; mas há mesmo assim uma data-limite importante. À meia-noite da sexta-feira anterior ao dia das eleições, deixa de ser permitido fazer doações para campanhas políticas.

Ou seja, finalmente acabou a “corrida do dinheiro”, no ciclo eleitoral mais caro de sempre. Algumas estimativas apontam para um gasto total (incluindo corridas presidenciais, ao Congresso federal e eleições estaduais e locais) na ordem dos 1300 milhões de dólares.

Mas ainda se pode continuar a gastar dinheiro na campanha americana. A lei não proíbe contribuir para os comités legais formados por ambos os candidatos para travar batalhas jurídicas por eventuais problemas no escrutínio dos votos. Ou seja, se houver uma “nova Florida”, a batalha do dinheiro continua.




O momento mais surreal da campanha 

Esta campanha já teve muitos momentos dramáticos, humorísticos, inesperados ou surreais.

Mas nada — nada — pode bater isto.

Frustrado por não poder participar nos debates presidenciais com Bush e Kerry, o candidato independente Ralph Nader resolveu encenar o seu próprio debate a três. Num momento de inspiração beckettiana, decidiu filmar um debate consigo e com George W. Bush e John Kerry representados por bonecos.

Este blog confessa que, se tivesse visto noutro site a imagem de Nader a debater com as “action figures” de Kerry e Bush, acharia que era uma sátira montada artificialmente. Mas a foto está no próprio site oficial de Nader — e ainda há um vídeo do “debate”, em Quicktime ou WMD.

Melhor ainda: é possível comprar o DVD do debate entre Nader e duas figuras de plástico. Este blog não sabe se consegue resistir.

Bin Laden entra pela campanha dentro 

Osama bin Laden entrou na campanha eleitoral americana. O chefe da Al-Qaeda gravou um video em que reconhece directamente a responsabilidade pelo 11 de Setembro e comenta as presidenciais de terça-feira.

Os dois candidatos já se pronunciaram sobre as novas ameaças de Bin Laden. Quem será beneficiado pela intervenção do terrorista? Por outras palavras, em quem vota Osama? A Reuters diz que Bush é quem tem a ganhar, mas há outras interpretações.

Por outro lado, uma suspeita deste blog: Osama bin Laden viu “Fahrenheit 911”, o filme anti-Bush de Michael Moore! Ou pelo menos ouviu falar dele. Afinal, no novo vídeo, Bin Laden fala expressamente sobre como Bush “lia um livro sobre uma menina e a sua cabra” — uma referência a “My Pet Goat”, o livro infantil que Bush lia a crianças quando foi informado do ataque. Só depois do filme de Moore é que este pormenor se tornou verdadeiramente popularizado. Terá o DVD do filme de Moore chegado a Bin Laden?





29.10.04

Voto postal com problemas 

Muitos americanos já começaram a votar, fazendo prever uma abstenção menor que o habitual. Muitos fizeram-no por correio (no Oregon, o único método de voto é o postal), mas já houve problema — inevitavelmetne, na Florida.

Observadores internacionais 

Esta sera a primeira eleição presidencial americana com observadores internacionais — pedidos por vários grupos americanos depois do imbróglio na Florida em 2000. O “Christian Science Monitor” foi averiguar o que eles vão fazer.

Se houver empate 

A Constituição americana prevê uma série de mecanismos caso o voto no colégio eleitoral acabe empatadoum cenário improvável mas não impossível: há 33 combinações matemáticas que podem produzir esse resultado. Quem seria Presidente então? Esta resposta é bastante rebuscada, mas interessante.







Economist com Kerry 

A revista “The Economist” (britânica, mas com uma redacção e muitos leitores nos EUA) apoiou Kerry num editorial, apesar de ter recomendado o voto em George W. Bush há quatro anos. A Editor & Publisher mantém um registo dos “endorsements” na imprensa americana; hoje, Kerry ganhou o de três jornais no Wisconsin, um “estado decisivo”.



28.10.04

Dos leitores: Problemas de contagem e tradição, campanhas comparadas 

Albano Silva escreve sobre a possibilidade de demorar alguns dias a conhecer-se o resultado das eleições americanas, e de o escrutínio ser novamente objecto de longas batalhas jurídicas:

“Como é possível que a maior democracia do mundo, ou que assim se diz, não consiga realizar umas eleições sem incidentes? É assim tão difícil contar votos? Será o problema de uma nação recente e sem história, que não tem tradições e não pode recorrer às lições do passado?”

Bem — não. Na verdade, o problema é exactamente o contrário: as instituições eleitorais americanas são as mais antigas do mundo (com a possível excepção inglesa).

Os EUA só existem há pouco mais de dois séculos, mas a estrutura do sistema eleitoral e muitas das suas regras mantêm-se exactamente as mesmas desde a fundação.

É a forte intenção federal dos fundadores dos EUA que faz com que o sistema do colégio eleitoral continue a existir; da mesma forma, é uma herança antiga o facto de a maquinaria de voto variar de estado para estado.

A questão seguinte foi enviada por Rui Marques, da revista Meios & Publicidade:

“ Quais os aspectos que o surpreenderam mais na comunicação dos partidos republicano e democrata? Isto é, o que é que lhe pareceu mais estranho ou até insólito, em comparação com a forma europeia de realizar campanhas eleitorais”

É difícil uma resposta breve para falar das diferenças entre campanhas nos EUA e na Europa. De qualquer forma, três pontos essenciais:

-A América é muito grande. Portugal tem dez milhões de habitantes em 92 mil quilómetros quadrados; a América tem 270 milhões de pessoas e quase 9 milhões de quilómetros quadrados de território.
O país é demasiado grande para a “política a retalho”; com excepção da fase inicial das campanhas, nas primárias, em que os candidatos têm de percorrer os estados (relativamente pequenos) do Iowa e do New Hampshire, não é possível fazer propaganda através de visitas a feiras e mercados.
Os candidatos fazem comícios, mas apenas para os media; a comunicação com o eleitorado é essencialmente electrónica.

—Tempos de antena: não há. Nos EUA não há tempos de antena gratuitos e isso implica que os candidatos têm de comprar o espaço publicitário. Como o financiamente estadual é limitado, isso implica grandes máquinas de angariação de fundos.
Também é permitido o uso de anúncios “negativos” — não em defesa de um candidato, mas atacando um rival. Outro factor completamente diferente da política europeia é a possibilidade de terceiros (grupos teoricamente independentes) comprarem anúncios, normalmente “negativos”.

—A mobilização: a comunicação dos candidatos com o eleitorado é essencialmente através dos “media”, mas simultaneamente as campanhas fazem enormes esforços de “grass roots”.
Recrutando voluntários (ou profissionais pagos), as campanhas têm legiões de “ground workers” a percorrer (sobretudo) os estados cruciais, falando com eleitores, participando em esforços de recenseamento, organizando “phone banks” de telemarketing.

27.10.04

Eminem vai à luta 

O rapper Eminem fez o vídeo mais político da sua carreira— e estreou-o a uma semana das eleições. A canção “Mosh” tem um tema claramente anti-Bush, mas o videoclip é ainda mais claro: Eminem está contra George W. Bush, e apela aos seus fãs que vão votar.

Eminem não é particularmente conhecido pelo seu activismo político — os seus alvos já incluíram Lynne Cheney e Tipper Gore, ele já se vestiu de Osama bin Laden num vídeo, mas normalmente os seus raps são ataques a boy bands, rappers rivais, ou a própria mãe. No entanto, o vídeo de “Mosh” é uma declaração política fortíssima.

Eminem é importante? Bem, neste ponto da corrida, é difícil que um clip a promover um álbum de rap que sai a 16 de Novembro vá ter um grande efeito. Mas é um facto mais relevante que, por exemplo, a “tournée” Vote For Change, que levou à estrada artistas anti-Bush como Bruce Springsteen, R.E.M. ou Dixie Chicks; na América actual, Eminem vende mais discos que estes músicos todos juntos. E o seu público é composto por jovens, e por muitos negros — a faixa demográfica que normalmente regista maiores taxas de abstenção. Enfim, mesmo que o seu efeito eleitoral seja nulo, o vídeo é interessante, e para quem se interessar pelo género, a música é produzida por Dr. Dre.

26.10.04

Parentes de Bush por Kerry 

A família Bush é famosa por ser unida e por valorizar imenso a lealdade. Mas é também uma família muito grande — tanto que alguns primos afastados de George W. Bush criaram um site de apoio a Kerry.

Mas atenção, a família Bush é mesmo muito vasta. Alguns genealogistas encontram laços de parentesco entre Bush e Winstons Churchill e a família real britânica. De resto, segundo o livro de Peter e Rochelle Schweitzer “The Bushes”, até George W. Bush e John Kerry são primos (muito) afastados — partilham ancestrais do século XVI.

Elvis toma conta do “show” 

A imprensa americana dedica as suas primeiras páginas de hoje à corrida presidencial, como tem sido hábito nos últimos dias, e a vedeta é… Bill Clinton. O regresso do ex-presidente à campanha eclipsou Bush e até o próprio Kerry. Se o efeito Clinton vai ou não ajudar o candidato democrata, ainda é cedo para saber. Mas não há dúvidas de que Kerry não vai repetir o erro de Al Gore, que minimizou o papel do popular ex-presidente na sua campanha de 2000: Clinton está a fazer campanha a todo o vapor.

Pode-se confiar nas sondagens? 

As sondagens não ajudam muito a prever o resultado destas eleições. Ora aparece Bush ora Kerry à frente. Mesmo ignorando as sondagens a nível nacional (relativamente irrelevantes, tendo em conta o sistema eleitoral americano), as sondagens estado-a-estado também mostram grandes discrepâncias entre si.

Este artigo procura explicar os problemas que se deparam aos institutos de sondagens numa corrida que se antevê muito renhida. O “pollster” Mickey Carroll, do prestigiado instituto Quinnipiac, diz que se pode confiar nas sondagens, porque que os principais estudos a nível nacional “estão separadas por poucos pontos”.

“Só algumas é que mostram grandes diferenças. A maioria das outras estão muito próximas”, com os dois candidatos separados por percentagens dentro da margem de erro, afirma Carroll. “Ou estão todas certas ou estão todas erradas. A beleza das sondagens políticas é que [na terça-feira] vamos saber se tinham razão.”

25.10.04

Um dia na vida de um candidato 

John Kerry esteve hoje em Filadélfia à hora do almoço. De manhã, estivera no New Hampshire. À tarde, seguia para o Michigan, e acabava o dia no Wisconsin.

Este blog não tem um planisfério à mão e não pode dar distâncias exactas, mas as viagens de Kerry são mais ou menos o equivalente a isto: começar o dia em Dublin, almoçar no Porto, seguir para Berlim, acabar o dia em Varsóvia. O calendário de Bush é igualmente exaustivo. É o problema de fazer campanha num país tão grande, com o problema adicional de os estados “indecisos” não estarem todos concentrados no mesmo sítio.

Renquist no hospital 

O juiz-presidente do Supremo Tribunal dos EUA, William Rehnquist, foi hospitalizado para uma intervenção cirúrgica. A saúde de Rehnquist vai aumentar ainda mais a importância de um tema que já é crucial — a nomeação de novos juízes para o Supremo pelo próximo Presidente.

Figuras secundárias em Filadélfia 

Desde a ex-senadora do Illinois e ex-candidata á presidência Carol Moseley Braun ao actual governador da Pensilvânia, passando por músicos e até um jogador de futebol dos Philadelphia Eagles, muita gente passou pelo palco de Clinton e Kerry em Filadélfia. Aproveitando a boleia de uma visita do candidato à Casa Branca, o Partido Democrata local colocou em frente às câmaras uma série de figuras locais.

A maior parte falava menos de um minuto, fazia uma crítica a Bush, um elogio a Kerry, uma evocação da presidência de Clinton, e despedia-se. Joe Hoeffel, candidato ao Senado pela Pensilvânia, falou um pouco mais, atacando o seu rival de Novembro, o republicano Arlen Specter.

Mas o mais eloquente dos “opening acts” foi o governador da Pensilvânia, Ed Rendell, apesar de um pequeno lapso (disse que nenhum político tinha sido melhor para Filadélfia que o 43º Presidente, quando se queria referir a Clinton; na verdade, Clinton foi o 42º, George W. Bush é que é o 43º). “Fechem os olhos 30 segundos e recordem-se do dia 1 de Janeiro de 2001”, apelou Rendell, enumerando uma série de indicadores do sucesso económico de Clinton, e recordando ainda tempos em que “a América era respeitada e admirada no mundo".

Philly loves Clinton 

Acabou há hora e meia um comício em Filadélfia com Bill Clinton e John Kerry. O candidato democrata à presidência era o cabeça de cartaz, mas o ex-presidente, como de costume, acabou por ser a estrela da companhia.

Clinton definiu esta eleição como uma escolha entre “o medo e a esperança” (Bush é o “medo”; Kerry a “esperança“), prometeu que com Kerry a América voltará a uma via multilateralista, e gabou os feitos económicos da última Administração democrata (a sua).

A recepção de Filadélfia a Clinton foi nada menos que eufórica. Mais até que a Kerry. Sempre que um dos oradores que os precedeu mencionava o nome de Clinton, a audiência (20 mil pessoas - muita gente para um comício nos EUA) ia ao rubro.

Clinton continua a ser muito popular nos EUA, mas em Filadélfia é particularmente forte; “Philly” tem uma grande população negra, e o eleitorado mais leal ao ex-presidente continua a ser o dos afro-americanos.

Parem as máquinas - Bush é inteligente 

Um dos ataques favoritos dos críticos de Bush é que o homem não deve muito à inteligência. A crítica é patentemente injusta — não se chega a Presidente dos EUA sendo-se um mentecapto. Mas quão inteligente é de facto Bush? Muito, e até mais que Kerry, acreditando no site conservador VDare, que apresenta argumentos para calcular o QI de Bush em 120 (um número que o colocaria acima de 85 por cento da população mundial).

24.10.04

Mais jornais pronunciam-se 

No penúltimo domingo antes das eleições, mais jornais fizeram o seu “endorsement”. Dois imporantes, com recomendações esperadas: embora com algumas reservas, o “Washington Post” apoia Kerry e o “Houston Chronicle” apoia Bush; ambos os jornais explicam eloquentemente as suas opções.

Na contagem da "Editor and Publisher”, Kerry vai bem à frente em termos de apoios da imprensa. Quem vai ganhar as eleições, isso continua muito indefinido.

23.10.04

Clinton para a ONU? 

Uma consequência secundária mas não dispicienda das presidenciais americanas: o futuro político da família Clinton.

Segundo a UPI, Bill Clinton está a pensar em suceder a Kofi Annan como secretário-geral da ONU. Isso só será possível com uma vitória de John Kerry — sem o apoio da Casa Branca, dificilmente Clinton teria hipóteses. Por outro lado, se ganhar Bush, os Clintons irão concentrar-se noutra meta: levar Hillary à presidência em 2008.

Métodos de previsão 

O PÚBLICO já escreveu este mês sobre indicadores alternativos para prever o resultado das eleições, incluindo clássicos como “ganha o candidato mais alto” ou “ganha o republicano se ele vencer no Ohio”. Mas este artigo no “Cornell Sun” traz ainda mais alguns, incluindo o favorito deste blog: ganha o candidato de cujo rosto se venderem mais máscaras no Halloween. Este indicador favorece Bush: segundo o artigo, 55 por cento das máscaras de Halloween com caricaturas dos candidatos tinham o rosto do Presidente, bem à frente das carantonhas de Kerry.


22.10.04

Data de validade incerta 

Sendo o objectivo deste blog acompanhar a campanha para as presidenciais americanas de 2 de Novembro, o seu tempo de vida é limitado — no máximo uma semana depois do dia das eleições, talvez até dia 9, tempo suficiente para apurar quem ganha e fazer um balanço da campanha.

Mas essa é a perspectiva optimista. Se as coisas correrem mal — e há várias maneiras de as coisas correrem mal, a 9 de Novembro pode não se saber ainda quem ganhou. Pois é: a hipótese de um processo arrastado, como em 2000, não é de todo impossível. Sobretudo porque, como em 2000, os candidatos aparecem empatados nas sondagens, a poucos dias das eleições.

21.10.04

Conversas com Deus 

Pat Robertson, reverendo fundador da organização da direita cristã Christian Coalition, disse que Deus o havia avisado de que a guerra ia ser um desastre. Robertson, que foi candidato à presidência nos anos 90, acrescenta que partilhou esta revelação com Bush, mas que o Presidente lhe disse que os EUA “não iam sofrer baixas nenhumas”.

Robertson divulgou agora os detalhes da sua conversa com Bush. Mais detalhes sobre as conversas de Roberson com Deus: Ele disse a Robertson que Bush vai ganhar as eleições.

Mais um jogo dos presidentes 

O Christian Science Monitor inclui no seu site mais um jogo online de simulação da campanha eleitoral. Este blog ouviu dizer que este jogo está particularmente bem feito, e é gratuito, mas hélas, não o pode confirmar — o Power Politics III só funciona em PC com Windows.



20.10.04

A revolução adiada no Colorado 

A 2 de Novembro, os cidadãos do Colorado vão votar num importante referendo sobre a mudança do seu sistema eleitoral; se fosse aprovado, o referendo iria (com efeitos retroactivos) atribuir os votos do estado no colégio eleitoral de forma proporcional e não segundo o esquema “winner takes all”. Mas, segundo uma sondagem Gallup/“USA Today”, o referendo deverá ser derrotado (os números relevantes estão na quarta tabela).

Mas em outros estados também há referendos para fazer alterações importantes ao sistema eleitoral — modificando o sistema das primárias. Um deles é no Oregon, outro é na Califórnia.



Bush é metodista 

Neste artigo sobre os problemas de John Kerry com católicos conservadores, escrevia-se que George W. Bush professa a fé baptista. Não é verdade, como apontou Rogério Morais, um atento correspondente deste blog no Texas:

Na edição do Público de hoje, vem uma informação sobre a fé de George Bush que não está correcta. Em http://jornal.publico.pt/2004/10/20/Mundo/I07.html diz que George Bush é Baptista, como Clinton, o que não está correcto.

George Bush é Metodista, que é diferente de Baptista. O pai de George Bush é da Igreja Episcopal e George W. Bush foi inicialmente da Igreja Prebestiana, tendo mudado para a Metodista quando casou com Laura Bush. Acho que a sua confusão é baseada no facto de o Bush falar que foi convertido por Billy Graham, que é de facto um pastor Baptista.

Pode ver essa informação, por exemplo, em: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/articles/A24634-2004Sep15.html

"A Capital" diz não 

Este post não trará novidades nenhumas aos leitores em Portugal, mas este blog só ficou a saber da notícia graças ao leitor Albano Silva. No mesmo dia em que neste blog se falava sobre os “endorsements” nos EUA, e sobre a ausência dessa tradição em Portugal, “A Capital” pronunciou-se sobre as eleições americanas.

Mary Poppins e Dick Tracy nas urnas com George Foreman e Michael Jordan 

Nos EUA o recenseamento eleitoral não é obrigatório. Os eleitores registam-se voluntariamente (o que contribui para explicar as altas taxas de abstenção); é frequente a existência de serviços para angariar eleitores para se registar. Estes serviços são normalmente de voluntários altruístas que querem contribuir para o bem público, ou de voluntários ligados aos partidos.

Mas também há empresas que registam eleitores por dinheiro. Geralmente, estas empresas funcionam bem — às vezes não. É o caso desta história fascinante no Ohio; um indivíduo contratado para recensear eleitores decidiu que dava muito trabalho andar de porta-a-porta a tentar convencer cidadãos a recencear-se.

O homem decidiu inventar nomes e moradas. Falta de imaginação ou sentido de humor perverso, ele escolheu nomes como os seguintes: Mary Poppins, Dick Tracy, George Foreman, Michael Jordan. Foi apanhado. A história é tão bizarra que inclui drogas: em vez de dinheiro, este inventivo angariador de eleitores foi pago em “crack”.

Democratas por Bush 

Tal como há reaganistas por Kerry, também há democratas por Bush. Os exemplos mais famosos são o célebre senador Zell Miller e o ex-“mayor” de Nova Iorque Ed Koch, mas há outros exemplos.

Reaganistas por Kerry 

Fenómeno curioso: vários reaganistas eminentes estão a declarar a sua desilusão com George W. Bush e a professar o seu apoio a John Kerry. Clyde Prestowitz, que trabalhou nas administrações do “Gipper”, e Doug Bandow, do libertário Cato Institute, são dois exemplos. O fenómeno é curioso porque Reagan é claramente a figura segundo cujo exemplo Bush quis moldar a sua presidência.

18.10.04

Dos leitores: edição mediática, a ética jornalística, desencanto existencial e o Daily Show 

Rui Fernandes escreve de Lisboa a propósito do “endorsement” do “New York Times” a John Kerry:

“Causa estranheza ver um jornal, ainda por cima respeitado como o NYT, a mandar palpites sobre eleições. Como é que um leitor pode ter confiança num jornal se esse jornal diz que vai votar no candidato X ou Y?

Veja, eu até acho muito bem que o NYT diga para votar contra Bush, oxalá os seus conselhos sejam ouvidos. Não percebo é que tipo de jornalismo é que é esse.”


Há uma grande diferença entre as tradições jornalísticas em países anglo-saxónicos e o que estamos habituados em Portugal.

Na imprensa generalista, que este blog se lembre, só por uma vez em tempos recentes é que um jornal português manifestou preferência por um candidato em eleições (“O Independente” nas eleições para a câmara municipal de Lisboa, salvo erro em 1989 — se a referência estiver errada ou se houver outros exemplos, agradecem-se correcções para a morada do costume).

De resto, a imprensa em Portugal tende a manter a neutralidade; opiniões sobre eleições, só em colunas de opinião, e estas vinculam apenas o seu autor.

Pelo contrário, nos EUA a tradição entre a maior parte dos jornais é assumir uma preferência. Quase todos os principais diários americanos aconselham ao voto num dos candidatos; esse “endorsement” é feito em nome do jornal, e é normalmente explicado num artigo não-assinado, publicado na página de editoriais ou de “op-ed” do jornal.

Quando (por exemplo) o “New York Times” apoia um candidato, a sua independência editorial fica comprometida? Bem, não.

O sistema, em teoria, funciona assim: a decisão do “endorsement” é tomada a nível do conselho editorial do jornal. Este conselho é composto por indivíduos cuja exclusiva responsabilidade é a página editorial.

Em Portugal, a opinião de um jornal é deixada a cargo de colunistas convidados ou de articulistas “da casa”. Nos maiores jornais americanos, a opinião do jornal é uma secção separada, o tal conselho editorial.

Esse conselho está separado do resto da redacção. As opiniões emitidas pelo conselho editorial do “Times” não são o produto de um consenso entre os seus jornalistas. E o trabalho dos jornalistas não é — novamente, em teoria — afectado: a sua obrigação continua a ser de isenção e neutralidade.

Por exemplo, as páginas de editoriais do “Wall Street Journal” são encaradas como extremamente à direita; os seus editoriais, embora critiquem ocasionalmente o Presidente Bush, reflectem normalmente uma posição próxima das alas mais radicais do Partido Republicano.

E no entanto, o conteúdo não-opinativo do “Journal” é geralmente aplaudido como isento. O mesmo pode ser dito do “New York Times” — que geralmente apoia políticos democratas, mas cuja cobertura jornalística não denota uma preferência política (evidentemente, há quem ache tanto o “Journal” como o “Times” contaminados por um “bias” de esquerda ou de direita).

Claro, ninguém pode ser 100 por cento objectivo. A maior parte dos jornais americanos é rotulado mais “de esquerda” ou “de direita”; alguns cínicos acham que todos os jornais são meros instrumentos de propaganda. Mas, de qualquer forma, em Portugal a maioria dos leitores também achará que o jornal A ou o jornal B é mais “de esquerda”, ou mais “de direita”, sem que esses jornais façam “endorsements”.

Rui Fernandes conclui a sua mensagem com um “PS” interessante:

“As televisões também apelam ao voto, ou [são só] os jornais [que o fazem]?”

As televisões não costumam fazer “endorsements”, pelo menos as televisões nacionais. A razão? Bem, a resposta deste blog não é científica, mais uma especulação, e novamente agradece-se que os leitores partilhem as suas ideias se tiverem uma teoria melhor.

Mas então: os jornais nos EUA raramente têm dimensão nacional. Mesmo o “Times”, com a sua grande tiragem, não é lido directamente em todo o país (muitos dos seus artigos são lidos em “segunda mão” através de “syndication”).

Ao contrário de Portugal, em que os principais jornais assumem um estatuto “nacional”, nos EUA a imprensa está regionalmente vinculada. Um diário assume-se como a “voz“ da sua comunidade; as suas posições editoriais são um reflexo do “mainstream” da região em que o jornal se insere.

Por isso não é de espantar que o “Times”, maior jornal de uma cidade claramente democrata, vote Kerry. Também não será de espantar que o “New York Post”, também nova-iorquino mas cujo público está situado mais à direita, vá apoiar George W. Bush.

Ora, as televisões, tendo um âmbito nacional, não estão vinculadas a uma comunidade. Daí que não se pronunciem sobre eleições — embora, como outros leitores já mencionaram, haja muito para dizer sobre o posicionamento político das televisões americanas.

E depois disto tudo: o que valem os “endorsements”?

Mais uma questão de difícil resposta. Tendo em conta a matemática eleitoral, o “endorsement” do “Times“ tem um peso relativo; Nova Iorque, e os estados circundantes onde o jornal é mais lido, já iria votar democrata.

Da mesma forma, que um jornal como o “Indianapolis Star” apoie Bush é mais ou menos irrelevante — o Indiana vai certamente votar republicano.

Mas e nos estados “indecisos”? Aí as coisas poderão ser diferentes. Ambos os candidatos têm recolhido “endorsements” da imprensa nos estados “indecisos”.

A “Editor and Publisher” mantém uma contagem dos “endorsements”.

Em termos de tiragem, os “jornais de Kerry” valem quase o dobro dos “jornais de Bush”. Em estados cruciais como o Ohio e a Florida, Kerry leva clara vantagem.

Porque é que a imprensa americana parece estar mais próxima (por enquanto) do democrata? Três teorias, uma democrata, outra republicana e outra “neutra”.

A primeira, mais grata aos apoiantes de Kerry, é que estando os jornalistas por definição bem informados, têm opções mais bem fundamentadas.

A segunda, mais grata aos apoiantes de Bush, é que os jornalistas tendem a ser mais “liberais” que a generalidade da população, e por isso tendem a usar os seus preconceitos ao decidir os “endorsements”.

A terceira, baseada em especulação demográfica: os jornais estão normalmente baseados em centros urbanos. Nos EUA, em geral, os centros urbanos votam democrata, e as zonas rurais preferem os republicanos. Na lógica de a imprensa ser uma reflexão das suas comunidades, é natural que o candidato democrata saia beneficiado.

Ainda continuando próximo do jornalismo, Luís Malheiro cita dois artigos nos “media” como tendo-lhe provocado uma angústia existencial sobre o estado do mundo:

“Depois de ler a crónica de Miguel Sousa Tavares no Público [de 15/10]("Sobreviverá o mundo a mais 4 anos de Bush?") e depois de ler no Guardian este artigo (e de ficar com pena por duvidar muito seriamente que o documentário tratado alguma vez seja visto em Portugal num horário nobre), ficam-me dúvidas cada vez mais profundas sobre a confiança que merecem os políticos, os media e o próximo.

Que será que nos vai acontecer se um dia as massas se libertarem do "thought control" e abandonarem esta indiferença letárgica?”


E concluindo esta “edição mediática” do “dos leitores”, Carlos Dias pede ajuda para localizar uma intervenção do mais famoso “fake newsman” da América, Jon Stewart:

“Quero só chamar a atenção para o Jon Stewart, que partiu a loiça num programa da CNN e que há um vídeo disso, mas já não o consigo encontrar! Como grande fã do Daily Show, espero que seja possível rever este espectáculo.”

A “loiça” a que o leitor se refere será a do programa Crossfire, da CNN; neste programa, dois apresentadores (um de esquerda, outro de direita) debatem os assuntos políticos do dia.

Stewart foi convidado a participar no programa, mas em vez do tom humorístico que os seus anfitriões esperariam, o comediante criticou ferozmente os “media” e em especial programas como “Crossfire”; Stewart acabou mesmo por se zangar com o co-apresentador do “Crossfire” Tucker Carlson (o link dá para uma página com vários formatos de vídeo para assistir a um clip de 13 minutos).

Faltam duas semanas 

E Bush vai à frente, segundo as últimas sondagens. De resto, muitos americanos já começaram a votar — vários estados permitem o “early voting”, e quase todos têm a opção do voto via postal — e na Florida, inevitavelmente, já houve problemas.

Jeb não quer ser Presidente 

Sim, ainda faltam duas semanas para 2 de Novembro, e sim, é um pouco exagerado pensar nas eleições de 2008 quando ainda nem se votou para as eleições de 2004. Mas nos meios políticos americanos a especulação é inevitável. Quem irá ser o candidato democrata em 2008? Se Kerry ganhar, irá certamente concorrer à reeleição — mas e se perder? Hillary Clinton? John Edwards?

Do lado republicano, a especulação é ainda mais forte. Se ganhar, Bush não pode recandidatar-se a um terceiro mandato; se perder, é pouco provável que tente outra vez.

Quem, então? John McCain? Rudy Giuliani? Arnold (primeiro é preciso uma revisão constitucional) Schwarzenegger?

E que tal outro Bush? Jeb Bush, irmão do actual Presidente, foi durante muitos anos considerado o verdadeiro delfim político da família. Tem um feitio e temperamento muito diferentes dos de George W. (ao contrário do irmão, Jeb é um político mais interessado nos “dossiers” e com um estilo menos abrasivo), mas também tem uma carreira política sólida - vai no segundo mandato como governador da Florida.

Mas Jeb diz que não está para aí virado. Jeb Bush promete que não quer ir para a Casa Branca, e que está muito satisfeito em Tallahassee.

Ou seja, o Partido Republicano terá de apresentar um não-Bush em 2008. Mas, depois de George H. e George W., haverá ainda uma terceira geração de Bushes na Casa Branca? Enfim, talvez em 2016 ou 2020, senão as gémeas de Laura e George W., pelo menos o jovem sobrinho do Presidente é uma hipótese.

17.10.04

O "Times" vota Kerry 

Num post abaixo falava-se dos “endorsements” de jornais, e hoje o mais importante dos diários americanos revelou a sua preferência para as presidenciais: o "New York Times" vota Kerry.

É natural que o “Times” vote Kerry — reflectindo o sentimento político da sua cidade, o “Times” tradicionalmente apoia candidatos democratas. Lendo o editorial em que o jornal justifica a sua opção, é interessante notar no entanto como o habitualmente cuidadoso “Times” se mostra “entusiasticamente” ao lado de Kerry, e como critica ferozmente Bush.

O "Times" não é o jornal de maior tiragem nos EUA (o “USA Today” e o “Wall Street Journal” têm tiragens maiores), mas é o mais influente no debate público. No entanto, o peso deste “endorsement” tem de ser qualificado — já era esperado que o jornal apoiasse Kerry, e embora respeitadas, as opiniões de um jornal nova-iorquino dificilmente irão alterar as opiniões dos eleitores dos estados mais “indecisos”.

Provavelmente de maior importância para Kerry são os apoios de uma série de outros jornais muito mais pequenos, mas localizados em estados cruciais como o Ohio e a Florida, que também aconselharam ao voto no democrata nas suas edições de domingo.

O transmissor de Bush — o mistério aprofunda-se 

A blogosfera americana andou uns dias entretida com a teoria da conspiração sobre uma fotografia do casaco de Bush que mostrava uma misteriosa prega durante o primeiro debate. Ele teria um transmissor escondido no casaco?

Foi preciso um português para dar uma nova dimensão ao mistério. Num ensaio fotográfico para o “New York Times”, Jorge Colombo tirou fotos às costas de uma série de nova-iorquinos — e os resultados são reveladores.



16.10.04

O voto dos jornais 

É tradicional na imprensa americana que os jornais declarem o seu apoio a um dos candidatos em eleições. Alguns não o fazem, mas a maioria dá o seu “endorsement” em toda a espécie de eleições. A decisão é tomada pelos gabinetes editoriais do jornal, e (pelo menos em teoria) não compromete a isenção da sua cobertura.

Como é que está a situação este ano? A “Editor and Publisher” mantém uma lista de “endorsements”, com uma característica particularmente útil — os que mudaram o seu “endorsement” da eleição de 2000 anos para agora, de republicano para democrata ou vice-versa. A lista dá grande vantagem a Kerry, mas muitos jornais ainda não se pronunciaram.

15.10.04

Cartas para o Ohio 

A angústia de não poder participar nas eleições americanas afecta muita gente no resto do mundo; há uma série de sites a fazer “eleições virtuais“. Mas o jornal inglês “The Guardian” vai mais longe; propõe aos seus leitores que escrevam cartas a eleitores de um município do Ohio.

O “Guardian” não apela directamente a que as cartas sejam pró-Kerry — mas a política editorial do jornal é bem clara, bem como os três exemplos de cartas escritas por “personalidades” inglesas. A “operação Clark County” é aberta a toda a gente.

E como é que o “Guardian” arranjou a lista de eleitores de Clark County? Simples; comprou-a por 25 dólares. Este tipo de informação é pública nos EUA.

Se o o leitor estiver entusiasmado pela ideia do “Guardian” e quiser escrever cartas a outros residentes do Ohio ou de outros estados — pode comprar aqui listas de eleitores, elaboradas pela firma Aristotle, a um preço módico — 25 dólares por cada mil nomes.

P.S: Se algum dos leitores deste blog resolver escrever uma carta a um eleitor de Clark County e estiver disposto a partilhá-la, é favor enviar o texto para o endereço habitual.

Notas do último debate 

Com atraso, aqui vão algumas observações sobre o debate entre George W. Bush e John Kerry no Arizona, quarta à noite (este site tem uma transcrição integral do debate; o “Seattle Times” faz um “fact check” das incorrecções proferidas pelos candidatos):

•É a guerra, estúpido

O debate era ostensivamente sobre assuntos “domésticos”. Mas é impossível falar de questões internas sem lembrar a guerra. Ao contrário do que é tradicional nas eleições americanas, o grande tema deste ano não será a economia — mas a guerra.

Afinal, a segurança interna é, por definição, uma questão “doméstica”. O que obriga a falar no terrorismo.

As preocupações com uma “recruta encapotada” (há quem receie que o prolongar do conflito no Iraque obrigue à reinstituição do serviço militar obrigatório, abolido nos EUA desde o Vietname) também são uma questão “doméstica”.

Por isso, grande parte do debate, sobretudo na fase inicial, foi dominada novamente pela guerra.

•Osama não preocupa

Kerry acusou Bush de se ter obcecado pelo Iraque, e de ignorar Osama bin Laden. “Seis meses depois de [Bush] dizer que queria capturar Osama bin Laden morto ou vivo, perguntaram-lhe, onde é que ele está? E ele respondeu: ‘Não sei. Não penso muito nisso. Não estou muito preocupado.’”

Bush respondeu: “Não acho que alguma vez tenha dito que não estava preocupado com Bin Laden. Acho que isso é um daqueles exageros.”

Mas Bush disse de facto algo de muito semelhante, e os democratas rapidamente apontaram para uma citação nesse sentido de 2002.


•Rambo Kerry

Os republicanos acusam John Kerry de ser “mole” e indeciso em questões de segurança. O candidato democrata sente por isso necessidade de assegurar que será impiedoso e determinado no combate ao terrorismo.

Kerry disse que a sua Administração irá “conduzir uma guerra mais inteligente, mais eficaz contra o terrorismo”, e prometeu “perseguir os terroristas”:

“Vou caçá-los. Vou matá-los. Vou capturá-los, vou fazer o que seja preciso para que [a América] esteja segura.”

Com esta linguagem “ramboesca”, quase se pode imaginar Kerry a tirar a farda do Vietname do armário, a pegar na M-16 e a saltar da Casa Branca para ir “caçar” e “matar” os terroristas.

•Roosevelt, Reagan e Kennedy

Ainda sobre o terrorismo, Kerry prometeu reconstruir as alianças dos EUA, e citou como exemplos três antigos presidentes americanos: Franklin Roosevelt, Ronald Reagan, John Kennedy. Curiosamente, Kerry citou novamente Reagan (um republicano, e a grande referência ideológica do “bushismo”) mais adiante, quando falava de política fiscal.

•Orgulho afegão

Ainda em questões internacionais, Bush mostrou-se particularmente orgulhoso na realização de eleições no Afeganistão. “O primeiro eleitor foi uma mulher de 19 anos. Pensem nisso. A liberdade avança.”

•Maiores, mas não vacinados

O moderador, Bob Schieffer da televisão CBS, interrogou os candidatos sobre o problema da ausência de vacinas da gripe.

Bush culpou uma firma inglesa, mudou a conversa para os processos de negligência médica frívola, e apelou aos americanos “jovens e saudáveis” que não se vacinem, para não esgotar os “stocks” para os mais débeis.

Kerry, por sua vez, não falou de vacinas e defendeu o seu plano de saúde.

•98-127-277

Bush trazia três números na cabeça, e fez questão de os usar: Kerry “votou para aumentar os impostos 98 vezes”; “votou contra reduções dos impostos 127 vezes”; e votou contra medidas para limitar o défice orçamental “277 vezes”.

O Presidente gostou tanto destes números que os mencionou três vezes. Kerry atirou um número maior ainda: “Apoiei ou votei a favor de cortes fiscais mais de 600 vezes.”

Por sua vez, John Kerry também tinha números para dar — lembrou que nenhum Presidente nos últimos 72 anos (desde Herbert Hoover) teve um saldo negativo na criação de empregos.

Kerry também acusou Bush de ter perdido 1,6 milhões de postos de trabalho (um pouco de contabilidade criativa neste caso; 1,6 milhões de empregos foram de facto perdidos no sector privado, mas essa perda foi até certo ponto compensada pela criação de mais 800 mil postos de trabalho na administração pública; em todo o caso, o saldo negativo é incontestável).

•A filha de Cheney é lésbica. Sabiam que a filha de Cheney é lésbica? E já agora, já vos tinha dito que a filha do vice-presidente é lésbica?

Já no debate entre vice-presidentes a questão tinha surgido. A falar sobre o casamento “gay”, o vice-presidente Dick Cheney evitou mencionar o caso de uma das suas filhas, que é assumidamente lésbica; mas o seu rival, John Edwards, fez questão de o recordar, louvando a tolerância de Cheney.

No debate de quarta o moderador Bob Schieffer perguntou se “a homossexualidade é uma escolha” (nos EUA a questão é importante; os grupos activistas “gay” dizem que a homossexualidade é uma questão genética, os conservadores homofóbicos dizem que é uma opção e que portanto pode ser “corrigida”).

Bush respondeu: “Bob, não sei, simplesmente não sei, acrescentando: “Temos uma escolha a fazer na América, que e tratar as pessoas com tolerância e dignidade. É importante que o façamos. Numa sociedade livre, os adultos podem viver a sua vida como quiserem, e isso deve ser honrado.”

Depois disso, Bush explicou a sua posição sobre a “santidade do casamento” e porque é que se opõe ao casamento “gay”

Já Kerry começou a sua resposta assim: “Somos todos filhos de Deus, Bob, e acho que se falar com a filha de Dick Cheney, que é lésbica, ela lhe vai dizer que ela está a ser o que é. Está a ser como nasceu.”

Depois Kerry explicou que acha que o casamento “gay” deve ser decidido a nível estadual, e que se opõe a mudar a Constituição para o banir.

Mas porque é que Kerry insistiu, tal como Edwards já havia feito, em falar na filha de Cheney? Os dois democratas pareciam empenhados em revelar à América que a filha de Cheney é lésbica — o que, concordam os dois candidatos, não tem mal nenhum.

A família de Cheney achou de mau gosto, e continuou a discussão nos “media”. A mulher do vice-presidente, Lynne Cheney, queixou-se de Kerry e disse que “ele não é um bom homem”.


•Muita fé

Os dois candidatos tiveram oportunidade de falar da sua fé, e de como ela afecta as suas decisões políticas. Kerry disse-se católico, e até que foi “menino de coro”, mas que não quer “impor as suas crenças”.

Isso inclui não nomear para o Supremo Tribunal juízes que queiram ilegalizar o aborto.

Bush, sem falar directamente em banir o aborto, mencionou a “importância de defender a vida”. Sobre a sua religião, disse: “A fé tem uma grande importância na minha vida. (…) Rezo por força. Rezo por sabedoria. Rezo pelas nossas tropas em perigo. Rezo pela minha família.”

•Toda a gente gosta de McCain

John McCain é provavelmente o político mais popular da América — um senador republicano que não tem pejo de criticar o Presidente quando não concorda com ele. Como este debate era no Arizona (o estado do McCain), era inevitável que o senador fosse mencionado.

Kerry voltou a falar no “meu amigo John McCain”; Bush respondeu dizendo que McCain já disse que vota nele — e no dia seguinte, lá estava ele de braço à volta de McCain, posando para as câmaras.

•O humorista

George W. Bush começou o debate algo “preso”, mas como acontecera no segundo debate, ficou mais à vontade à medida que os 90 minutos decorriam.

E como de costume quando está descontraído, Bush revelou a sua veia humorística. O moderador perguntou-lhe de quem era a culpa do aumento dos custos da saúde, “do governo, das companhias de seguros, dos advogados, dos médicos?”.

Bush respondeu: “Bolas, espero bem que não seja do governo.”

Mais adiante, Kerry criticou a política de saúde do seu adversário, citando números publicados por “órgãos de comunicação social de prestígio”.

Bush começou assim a sua resposta: “Com todo o respeito, não tenho certeza se é credível citar orgãos de comunicação social de prestígio… Oh, deixem lá.”

A piada revela o cinismo crescente de ambos os lados da barricada política sobre os “media”. Mas neste caso com um factor extra — o moderador do debate trabalha para a CBS News, um típico “órgão de comunicação social de prestígio”, que pediu desculpas recentemente por ter divulgado documentos falsos sobre o serviço militar de Bush.

Finalmente, questionado sobre a importância das mulheres na sua vida, Bush explicou o que é que aprendeu com elas: “A ouvir o que elas dizem. A sentar-me direito e a não fazer caretas.” (Mais adiante, Bush teve o momento mais cor-de-rosa do debate, confessando que a sua relação com a mulher Laura foi “amor à primeira vista”).

Mas Kerry também teve momentos de humor desta vez — ironizando sobre como tanto ele como Bush como o moderador tinham tido sorte no casamento, “alguns mais ainda que os outros”. E antes já tinha dito que “ouvir o Presidente a falar de responsabilidade fiscal é como Tony Soprano a falar de lei e ordem”.

•Sondagens instantâneas

Deram vitória a Kerry, duas delas, a outra registou um empate.


14.10.04

Literatura de primeira 

Mais um sinal de como a América, neste ciclo eleitoral, está invulgarmente apaixonada pelo debate político: o relatório da comissão independente que investigou o 11 de Setembro é candidato ao prémio do National Book Award (categoria não-ficção). E não é só a nomeação para o prestigiante prémio; o relatório também é um “best seller” nas livrarias americanas.

Nader fora da Pensilvânia 

Justificando a sua decisão com irregularidades na recolha de assinaturas, um juíz da Pensilvânia proibiu que o nome de Ralph Nader apareça nos boletins de voto daquele estado, um dos maiores entre os “indecisos”. Entre as irregularidades: um indivíduo pagou entre 100 e 200 dólares a pessoas sem abrigo por assinaturas — alguns dos sem abrigo terão assinado mais que uma vez.

Até agora, Nader está confirmado nos boletins de 34 estados e da capital, Washington DC. Ainda há processos pendentes em vários outros estados.




We report, you decide 

Este é um dos “slogans” da Fox News, a estação televisiva que é a “bête noire” dos esquerdistas americanos. Bill O'Reilly é uma das figuras mais populares da estação; o seu O'Reilly Factor é o programa mais visto dos canais de notícias da TV americana.

O'Reilly foi processado por assédio sexual, o que está a fazer as delícias da esquerda anti-Bush e anti-Fox; o apresentador nega furiosamente as acusações e respondeu com um contra-processo, dizendo-se vítima de uma tentativa de extorsão.

Depois de três debates… 

…tudo empatado, ou pelo menos é isso que diz a maioria das sondagens, que mostram Bush e Kerry separados por diferenças dentro da margem de erro. Ainda haverá eleitores indecisos. E, no entanto, os debates serviram claramente para estabelecer as diferenças entre os dois candidatos. Mais logo, algumas notas neste blog sobre o debate de ontem. O “Boston Globe” traz uma análise interessante do efeito do terceiro debate no resto da campanha.

13.10.04

Último debate 

O último dos três debates entre os candidatos à presidência é esta noite, à mesma hora que os outros — nove da noite da Costa Leste dos EUA, duas da manhã em Portugal.

Kerry e Bush vão debater sobre temas “domésticos”, e deverão centrar-se na economia. Partem para o debate empatados: A “tracking poll" Reuters/Zogby dá exactamente a mesma percentagem a cada um.

Dos leitores: os Swift Boat Vets e a verdade, os debates “à portuguesa" 

Uma questão fascinante colocada por Paulo Santos:

“Tive a oportunidade de ver um spot dos Swift Boat Veterans for Truth [o anúncio chama-se “Friends”, é o segundo na página], no qual se afirmava que Kerry se tinha deslocado secretamente ao Vietname do Norte para se encontrar com forças que combatiam os EUA, à semelhança do que fez Jane Fonda.

Quanto a esta a sua deslocação [de Fonda] aos territórios controlados pelos Vietcong é um facto histórico incontestável. Quanto a Kerry nunca tinha ouvido semelhante e julgo que se trata obviamente de uma mentira.

A questão que gostaria de colocar é a seguinte: este tipo de anúncios de natureza difamatória não poderá implicar um processo em tribunal? É vulgar que spots desta natureza sejam difundidos em campanhas presidenciais sem nenhumas consequências jurídicas?”


Já perguntava Pilates a Cristo: mas o que é a verdade?

Os anúncios dos Swift Boat Veterans despertaram uma onda de acusações e contra-acusações sobre o currículo militar de John Kerry. A imprensa americana investigou as questões colocadas pelos Swift Vets, e apurou que muitas das suas alegações são falsas.

O problema está na fronteira entre uma mentira descarada e uma insinuação subtil. Por exemplo, Paulo Santos descreve o anúncio como sugerindo que Kerry viajou a Hanói.

O anúncio não diz bem isso, embora vendo o “spot” sem prestar muita atenção, seja fácil ficar com essa impressão. “Friends” fala das viagens (verídicas) de Jane Fonda ao Vietname do Norte, e passa rapidamente para as viagens de Kerry a Paris para se encontrar com o “inimigo”.

Kerry foi de facto duas vezes a Paris em 1970 e 1971. A sua campanha explicou que Kerry viajou à capital francesa (onde decorriam negociações entre os governos de Ho Chi Minh e Richard Nixon), não para se encontrar com o “inimigo” mas para fazer esforços no sentido de identificar e libertar soldados americanos desaparecidos em combate ou prisioneiros no Vietname do Norte.

Como não há registos exactos das actividades de Kerry em Paris, é difícil comprovar ou desmentir as alegações dos “swift vets”. Da mesma forma, a bombástica acusação de que Kerry “traiu o país” cai no domínio da opinião, e à luz da liberdade de expressão dificilmente se pode descrever como calúnia.

Algumas alegações dos Swift Vets estavam factualmente erradas. Nesses casos, um candidato pode apelar aos tribunais por difamação, ou à comissão eleitoral. Mas o mal já está feito, e Kerry tem pouco a ganhar em chamar ainda mais a atenção para os anúncios.

Quer isso dizer que na campanha eleitoral americana vale tudo? Pode atacar-se impunemente um candidato dizendo tudo e mais alguma coisa?

Bem, não. Mentir não é aceitável. Mas, mais uma vez, a diferença entre uma mentira clara e uma insinuação perniciosa não é clara.

Como a publicidade comparativa e “negativa” é legal nos EUA (não só na política, mas também a nível de anúncios comerciais; as “guerras das colas” ou de fabricantes de automóveis são homéricas), o problema é difícil de resolver.

A comunidade política rejeita — ou melhor, diz rejeitar — unanimemente o uso de anúncios “negativos”; a maioria dos eleitores concorda. Mas está provado que eles funcionam, e funcionam muito melhor que os anúncios “positivos”.

Tem havido ao longo dos anos várias tentativas de controlar este tipo de propaganda. Mas há sempre meios de contornar as proibições, e este ano as organizações conhecidas como “527” têm estado particularmente activas no campo do “arremesso de lama”.

As 527 são organizações teoricamente independentes e desligadas das campanhas, mas que na prática funcionam como “cães de fila” dos candidatos, fazendo o tipo de ataques cerrados que ficariam mal a Bush e a Kerry se fossem as suas próprias campanhas a fazê-los.

Resultado: as televisões americanas estão inundadas de anúncios estridentes — não só anti-Kerry, mas também anti-Bush — e daquilo que o leitor define como “spots” de “natureza difamatória”.

Num tema não muito distante, Miguel Santos escreve de Sacramento (Califórnia) sobre o caso do filme anti-Kerry da Sinclair Broadcasting, remetendo para um post neste blog, amplamente citado abaixo:

“Só para lhe chamar a atenção de que há detalhes bastante mais complexos acerca da polémica sobre o Sinclair Broadcasting Group:

So, Sinclair is prepared to give a major blast of propaganda to the Bush campaign. What's in it for them? Thanks to The Raw Story, we learn that a company called Jadoo Power Systems has been awarded a contract to develop power systems for the US Special Operations Command. No word on how much it was worth, but it must have been a big deal, because a Jadoo press release from 2003 brags that the company's president and CEO, Larry Bawden, personally briefed President George W. Bush on his company's technology.

It could have been old-school ties. A Fortune magazine profile from October 2003 notes:
Barely two years old, [Jadoo] has sold its fuel cells to Boeing; government agencies like the CIA, the Secret Service, and the Bureau of Alcohol, Tobacco, and Firearms; and the U.S. Army. Earlier this year Jadoo placed in the business-plan competition at Harvard Business School, where vice president of business development Jon Berger, 30, earned his MBA this past spring.
Or maybe it was an Enron alumni gathering, The Fortune article continues:
Jadoo's president, Larry Bawden, 45, learned about fuel-cell technology at Aerojet, based in Sacramento, where he worked as director of fuel-cell products. In 1995, Aerojet sold off his unit, and Bawden left with a golden parachute. Embarking on an around-the-world boat trip with his wife, he got as far as Australia before some former colleagues called. They persuaded him to return to become a vice president at a fuel-cell company they were starting called PowerTek. They'd soon lined up a huge customer—the energy giant Enron—but unfortunately it was about to collapse.
So, who owns Jadoo?

The company's Investor Relations page lists only two "current investors":

Sinclair Ventures, Inc. is a wholly owned subsidiary of Sinclair Broadcast Group, Inc....
Contango Capital Management was formed to bring capital to innovative entrepreneurs who are working hard to answer the energy challenges facing our world today and in the near future. Located in Houston, Texas, Contango Capital Management invests in early-stage technology-based and service companies in the energy industry...”


Miguel Santos passa do caso Sinclair para comentar outro post anterior:

“Acerca do post relativo à "vasta conspiração da esquerda", quero salientar o facto bastante evidente que os donos/CEOs de empresas de “media” como o “New York Post” (Richard Scaife), Fox News (Rupert Murdoch), e Media News (Dean Singleton), entre outros, contribuem financeiramente (e substancialmente) para a (re)eleição de GW Bush.

[Nota: o “Post”, tal como a Fox, fazem parte da Newscorp de Murdoch. Richard Melon Scaife não tem laços directos com o “Post”, mas é proprietário de uma série de jornais, particularmente no seu estado da Pensilvânia, com uma linha editorial de direita pró-Bush].

Uhmmmmm.... e incrivelmente todos dão dinheiro para candidatos conservadores... será coincidência?

(http://www.editorandpublisher.com/eandp/news/article_display.jsp?vnu_content_id=2076212)

Isto já para não falar no sui-generis dono do Washington Times (Sun Myung Moon), que se considera o novo Messias e que também contribui substancialmente para causas da direita conservadora americana:

(http://en.wikipedia.org/wiki/Sun_Myung_Moon.”)
(http://www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?f=/c/a/2004/10/03/MOON.TMP)”


Os factos referidos por Miguel Santos são inegáveis. Fazendo, salvo seja, o papel de “advogado do Diabo”, eis argumentos conservadores: as famílias que controlam órgãos de grande influência como o “New York Times” ou o “Washington Post” são conotadas com a esquerda democrata; magnatas anti-Bush como George Soros têm gasto milhões em campanhas publicitárias como o Presidente.

A Fox News é mais tendenciosa que, por exemplo, a CNN? São ambos órgãos isentos? Quem é um jornalista honesto e quem é um propagandista sem escrúpulos?

Um observador “neutro” pode ter a tendência de dizer: são todos maus, à direita e à esquerda, não se pode confiar em ninguém. Mas isso é uma visão simplista. Não se pode meter no mesmo saco todos os órgãos de comunicação social; há nos EUA um leque variadíssimo de “media”. Seria injustar qualificar cada um deles como “de esquerda” ou “de direita”, e mais injusto ainda descrevê-los todos como meras armas de propaganda.

Nem é líquido que a esquerda e a direita nos EUA, e os “media” mais próximos de cada um dos sectores, se equiparem no seu recurso a tácticas “sujas” e propagandísticas. Quem é pior?

Este blog tem as suas opiniões, mas não se sente habilitado para as expressar. Os leitores são como habitualmente convidados a dar as suas ideias sobre a “vasta conspiração de esquerda” vs. a “vasta conspiração de direita”.

E ainda no tema da “natureza difamatória”: este blog não se atreve a reproduzir as primeiras frases da mensagem de um outro leitor que se identifica apenas como “Jorge”, e que escreve de um endereço com um domíno da África do Sul.

Este leitor responde à questão proposta por Antero Silva num “dos leitores” anterior, e tece considerações não publicáveis sobre a política nacional.

Jorge concorda com Antero Silva em que os debates “à portuguesa” não são tão esclarecedores como os debates “à americana”, e propõe:

“Ponham os nossos políticos a responder perguntas de pessoas “reais“ e não lhes deixem enrolar a manta por dez minutos. Aí é que se ia ver quem tem unhas para tocar a guitarra (portuguesa…) da política.”

12.10.04

Contagem decrescente 

Faltam três semanas para as presidenciais americanas de 2004.

A três semanas do dia D, a última sondagem dá um empate absoluto entre George W. Bush e John Kerry.

11.10.04

Um filme anti-Kerry 

A guerra dos “media” continua na campanha eleitoral. Agora é a vez do grupo Sinclair Broadcasting, proprietário de 62 estações locais de televisão nos EUA: o grupo anunciou que vai transmitir um documentário intitulado “Stolen Honor”, um filme altamente crítico do papel de John Kerry depois de regressar do Vietname.

O filme centra-se na reacção às declarações de Kerry sobre atrocidades cometidas em combate, e nos veteranos de guerra que se sentiram “traídos” por elas. Os autores do filme são críticos declarados de Kerry.

A Sinclair já despertara controvérsia este ano, ao recusar-se a retransmitir nas suas estações uma edição do programa da ABC “Nightline” em que eram mostrados os rostos dos soldados americanos mortos no Iraque.

O Partido Democrata anunciou que vai fazer uma queixa à comissão de eleições, acusando a Sinclair de uma “contribuição ilegal” à campanha de Bush. Por sua vez, a Sinclair defende que o documentário não é propaganda, e numa mensagem no seu site apela a John Kerry a que participe no programa.

O episódio reactiva a enorme discussão nos EUA sobre o papel dos “media”. À esquerda, a Sinclair é apresentada como um testemunho da manipulação das grandes empresas de comunicação social pela Administração Bush; à direita, responde-se com comparações ao filme “Fahrenheit 911” de Michael Moore ou recordando o caso dos documentos falsos sobre o serviço militar de Bush na televisão CBS.

Dos leitores: um fã dos debates 

Antero Silva, que também tem um blog, diz que ficou fã dos debates presidenciais americanos:

“Acabo de ver o segundo debate Kerry-Bush e que diferença para quem está habituado à “política à Portuguesa”! Não me está a deixar falar! não me interrompa que eu não o interrompi a si! agora é minha vez depois fala o senhor!, isto é um debate com políticos portugueses.

À Americana os políticos têm de andar no meio de cidadãos a sério e de responder a perguntas a sério. Eu até acho que o sr. Bush é um papalvo que não deve nada à inteligência. Mas nunca vi nenhum político em Portugal a fazer o que ele fez: responder directamente e rapidamente a perguntas.

As perguntas do público foram por certo escolhidas com cuidado e com “censuras”. Pode ser que sim, mas eram boas perguntas. Eu se fosse americano estava perfeitamete esclarecido. Sabia em quem tinha de votar. É para isso que os debates servem não é? Em Portugal nunca vi um debate que me esclaressesse.”


Antero Silva conclui perguntando-se se o problema é dos políticos portugueses ou do formato assumido pelos debates em Portugal. É uma questão para os leitores — os debates “à americana” são mais úteis para informar os cidadãos? E se o são, o que é preciso mudar nos debates “à portuguesa”? Respostas ao endereço habitual.

A vasta conspiração de esquerda 

Os leitores europeus já estarão familiarizados com a argumentação de parte da esquerda americana, que acusa os “media” dos EUA de serem controlados por grandes empresas e de serem demasiado subservientes à Administração Bush.

O cineasta Michael Moore disse que um objectivo secundário do seu filme “Fahrenheit 911” era mostrar que a imprensa “mainstream” fracassou na cobertura da presidência de George W. Bush.

O filme “Outfoxed foi ainda mais longe, acusando a televisão Fox News de ser um instrumento de propaganda da direita americana, evocando o espectro daquilo que Hillary Clinton definiu como uma “vasta conspiração de direita”.

Mas há quem tenha a opinião exactamente oposta. Muitos conservadores americanos queixam-se de que os “media” são sistematicamente tendenciosos na sua cobertura política, e sempre num sentido hostil a George W. Bush.

O tablóide de direita “New York Post” denuncia essa “vasta conspiração de esquerda”, e diz que tem provas.

10.10.04

Uma coisa em que todos podem concordar 

Pelo menos numa das heranças de George W. Bush deve ser possível encontrar consenso: o actual Presidente revitalizou o debate político na América.

O 11 de Setembro também teve certamente um papel importante no novo interesse que os americanos dedicam ao debate político. Mas o efeito polarizador de Bush ajudou decisivamente a aumentar o envolvimento dos cidadãos na discussão pública sobre questões políticas. O “New York Times” inclui um artigo sobre como a juventude americana está mobilzada de uma forma quase inédita para estas eleições. O autor Todd Gitlin, que estudou as correntes políticas da década de 60, afirma mesmo que desde os tempos da guerra do Vietname que não havia tanta emoção à volta da política — talvez mesmo nem nessa altura.

E será o fenómeno limitado à América? Ou terá a administração George W. Bush revigorado o debate político a nível internacional? Respostas ao endereço habitual.

8.10.04

Presidente Milli Vanilli 

É certo: estas eleições vão fazer os fanáticos da teoria da conspiração trabalhar horas extraordinárias. Uma das últimas, e mais divertidas teses: Bush é o Presidente Milli Vanilli.

Milli Vanilli era uma banda pop dos anos 80 que foi exposta por fraude — os seus membros não cantavam nos discos, e todos os concertos eram em “playback”. Ora, a ideia de que Bush é apenas uma marioneta do seu “staff" não é original; quantos “cartoons" já foram feitos com um pequeno Bush sentado no colo de um Cheney "fantochista"?

Mas agora há quem ache com toda a seriedade ter descoberto provas de que Bush é o Rob Pilatus da política americana. A "prova"? Um "alto" no casaco de Bush durante o primeiro debate televisivo, que poderia esconder equipamento electrónico através do qual assistentes sussurravam as respostas ao Presidente. De acordo com análises à “documentação", essa seria a explicação para os silêncios de Bush em certas partes do debate. Quem for assistir ao debate desta noite que preste atenção — pode haver um momento em que Bush diga “tou xim?”.

Actualização: Inevitavelmente, já existe também uma teoria da conspiração sobre uma “batota" de Kerry.

Até no “spam"? 

Os esforços de indivíduos e organizações paralelas às campanhas têm sido muito imaginativos este ano. Mas este meio é novo, pelo menos para este blog. Agora até no “spam” vem propaganda política.

“Spam" é o termo para as mensagens não solicitadas que invadem os e-mails às toneladas. Normalmente tentam vender produtos para lidar com disfunções sexuais ou apresentam propostas de negócio de pretensos familiares de antigos ditadores africanos. Agora, alguém lembrou-se de fazer propaganda anti-Bush através do “spam”.

É garantido que este mail não veio da campanha de Kerry — é ilegal às campanhas políticas americanas mandar “spam” — e mais garantido ainda que não veio da campanha de Bush. Apesar disso, o e-mail de envio, , tem "GEORGE W. BUSH" como o emissário; o título é "I approve this message".

Normalmente, este blog não pactuaria com o "spam”, mas só por esta vez vai citar o início da mensagem (de resto muito longa):

PLEASE CONSIDER MY EXPERIENCE WHEN VOTING IN 2004

EXPERIENCE AND EDUCATION

Law Enforcement:
I was arrested in Kennebunkport, Maine, in 1976 for driving under
the influence of alcohol. I pleaded guilty, paid a fine, and had
my driver's license suspended for 30 days. My Texas driving
record has been "lost" and is not available.

Military:
I joined the Texas Air National Guard and went AWOL. I refused
to take a drug test or answer any questions about my drug use.
By joining the Texas Air National Guard, I was able to avoid
combat duty in Vietnam.


O resto da mensagem continua nesta veia por mais seis mil caracteres. Este blog promete não reproduzir mais “spam” — excepto, em nome da equidade, se aparecer um “spam” anti-Kerry entretanto.

Actualização: O “spam" anti-Bush já deu a volta à Net, e parece que não é o único; o exemplo citado não parece ter fins lucrativos, mas há “spammers" na República Checa a tentar ganhar dinheiro à custa das mensagens anti-Bush.


Bush e Kerry no "town hall" 

O formato do debate deste noite é o “town hall” — um conceito muito caro aos americanos, uma espécie de reunião municipal em que os cidadãos interpelam directamente os candidatos. Haverá um público de 100 pessoas, das quais duas dezenas irão questionar Bush e Kerry.

Quem decide que perguntas é que são feitas? Cada invidíduo presente no “town hall” terá a sua pergunta. O moderador, o jornalista da ABC Charles Gibson, recebeu hoje de manhã uma lista de questões, e irá seleccionar as vinte questões tendo em conta critérios de relevância. Mas as perguntas são da responsabilidade dos participantes; nenhuma das campanhas tem acesso ao seu conteúdo.

E como é que foram seleccionados os 100 cidadãos presentes no “town hall”? A comissão independente que organiza os debates encarregou a firma de sondagens Gallup de escolher uma amostra representativa de eleitores da área metropolitana de St. Louis, a cidade onde se realiza esse debate.

Cada eleitor é “soft Kerry” ou “soft Bush” — ou seja, cada eleitor é mais próximo de um dos candidatos, mas não completamente decidido quanto à sua tendência de voto — ou então simplesmente indeciso. Este artigo explica um pouco mais sobre as regras de selecção.

Debates, 2º round 

George W. Bush e John Kerry encontram-se esta noite para o segundo “round” dos seus três debates televisivos. Tradicionalmente, só o primeiro dos debates é que tem real influência no eleitorado — mas esta eleição não está a ser nada convencional, e a margem mínima de diferença entre os dois candidatos aumenta a importância deste debate.

Além disso, é previsível que as audiências sejam superiores ao habitual. Este blog vai assistir ao debate num local onde o “live blogging” não é possível, por isso desta vez não haverá comentários simultâneos. O encontro de St. Louis começa às nove da noite, hora de Nova Iorque, duas da manhã hora portuguesa — quem ainda esteja acordado pode ouvir o debate no site da emissora pública americana.

7.10.04

As audiências estão boas 

Os americanos estão mesmo a prestar atenção aos debates; mais de 46 milhões de pessoas assistiram ao confronto entre Cheney e Edwards. Não há dúvidas de que, no actual ciclo eleitoral, o interesse pela política subiu muito nos EUA.

Factcheck.com? Factcheck.org? FatChick.com? 

Dos erros factuais cometidos pelos candidatos é certamente o mais inocente e inofensivo, mas está a dar brado nos EUA: quando Dick Cheney recomendou visitar o site independente Fact Check.org, acabou por dizer Fact Check.com, o que teve resultados interessantes.

Em todo o caso, no combate da Internet, as duas campanhas estão empatadas. John Kerry havia mencionado o seu próprio site johnkerry.com no primeiro debate, agora é Cheney que mostra que também sabe navegar na Net. Em 2000, Al Gore parecia um perito em questões da Net — mas o mito de que ele se autoproclamara inventor da Internet custou-lhe caro.


6.10.04

Debate dos vices 

Este blog está demasiado cansado (isto do “live blogging” tem muito que se lhe diga) para ter conclusões imediatas sobre o debate… Mas, mesmo assim, algumas notas:

—Cheney repetiu que havia uma ligação entre Saddam Hussein e Al Qaeda — citando em especial o terrorista Abu al-Zarqawi apesar de um recente relatório da CIA que desmentia a existência de ligações entre Zarqawi e Bagdad antes da guerra.

—Cheney acusou repetidamente Edwards de inconsistência (“flip-flops”!); Edwards acusou repetidamente Cheney de mentir.

—Parte do “resultado” dependerá dos “spin” nos “media” depois do debate — mas a este blog o resultado pareceu mais ou menos um empate. Ambos atacaram muito forte, ambos fizeram passar as suas mensagens, não pareceu que houvesse um “vencedor” claro.

—Os dois homens estavam zangados um com o outro; o debate foi intenso e duro.

—O debate não foi tanto de substância como o confronto Kerry-Bush de quinta; Edwards e Cheney passaram demasiado tempo a atacar-se.

Debate dos vices  

Discursos finais: Edwards olha directamente para a câmara, tenta expor emoção, repete que ele e Kerry têm “um plano para resolver esta confusão no Iraque"; recorda o seu passado. Cheney louva os feitos da Administração Bush,

Debate dos vices 

“Alguma vez viram a América tão dividida?”, diz Edwards. E a culpa, diz ele, é de Bush.

Debate dos vices 

“Não fomos capazes de conseguir o que o Presidente fez no Texas”, em termos de pacificação do ambiente político, admite Cheney. O republicano promete continuar a tentar. Diz que nos seus tempos no Congresso as coisas não eram tão violentas.

Debate dos vices 

Cheney tem alguns momentos em que transmite uma impressão de sinceridade, às vezes consegue humor. Mas há algo de errado ou com o seu microfone ou com a transmissão a que este blog está a assistir - por vezes, não se ouve bem o que ele está a dizer.

A moderadora faz uma pergunta particularmente agressiva, acusando ambos os candidatos de se contradizerem — Kerry sobre o Iraque, Bush sobre a criação de um Departamento de Segurança Interna. “Flip flops”, na expressão que entrou no léxico político americano.

Debate dos vices 

Gwen Iffil pergunta a Edwards sobre a sua falta de experiência (começou a carreira política há seis anos). Edwards garante que tem “uma ideia muito clara do que tem de ser feito” em termos de segurança nacional. Pode ser apenas impressão deste blog, mas o sotaque (já normalmente muito carregado) sulista de Edwards parece ter ficado ainda mais espesso durante esta resposta.

Como Kerry na quinta-feira, Edwards usa linguagem “rambólica”, prometendo “encontra e matar os terroristas onde quer que eles estejam”.

Cheney sugere que o seu estatuto é de total lealdade para com o Presidente, enquanto Edwards estaria na Casa Branca a pensar na sua própria eleição como Presidente.

Debate dos vices 

Cheney acusa Edwards de ter fugido aos impostos enquanto advogado; Edwards acusa Cheney de ter fugido aos impostos enquanto director da Halliburton. Os dois candidatos falam sobre Sida; concordam que a Sida é uma doença muito má e com consequências muito trágicas.

Debate dos vices 

Agora um tema bom para Cheney; o problema dos “processos frívolos” por negligência médica, que têm um “impacto devastador” sobre os custos da saúde nos EUA. A profissão em que Edwards fez a sua fortuna: advogado especializado em casos de negligência médica.

Debate dos vices 

Depois de mais uma briga sobre impostos (“eles querem subir os impostos”; “não, eles é que querem baixar os impostos só para os ricos”) Cheney explica-se sobre o casamento “gay”, um tema em que a sua posição diverge da de George W. Bush. Edwards elogia a posição de Cheney por “amar a sua filha”; o vice-presidente parecia não querer falar da sua vida familiar, mas Edwards faz questão de dizer que Cheney tem uma “filha lésbica”. Edwards argumenta ainda que “a Constituição não deve ser usada para dividir os americanos”, opondo-se a uma emenda constitucional anti-casamento “gay”

Agora é Edwards que tem de se explicar; ele e Kerry acham que o casamento é “entre um homem e uma mulher”, mas que os casais “gay“ devem ter direitos e protecções legais.

Depois de 45 minutos sobre questões de política internacional, o debate avança para temas domésticos.

Cheney agradece a Edwards as "palavras amáveis" sobre a sua família.

Factcheck.org 

Correcção: o site mencionado por Cheney era Factcheck.org. É escusado ir lá; o server tem demasiados hits e não consegue abrir a página.

Debate dos vices 

“Povo israelita tem direito, obrigação de se defender a si próprio”, diz Edwards. Conta uma história sobre visita a Jerusalém e de como esteve num hotel perto do qual houve um atentado bombista que matou 15 pessoas. Intima os EUA para

Cheney regressa à Halliburton: “Eles tentam atacar a Halliburton para desviar a atenção dos seus próprios currículos”, diz, e acusa Edwards de não ser assíduo, e diz que um jornal da Carolina do Norte lhe chama o “Senador Foi-se” “[Edwards tem a] pior assiduidade do Senado. Sou presidente do Senado [por inerência de funções] e só o conheci esta noite neste palco.”

De volta ao Médio Oriente, Cheney associa o derrube de Saddam com a redução do número de atentados em Israel. E volta ao ataque a Edwards. O democrata responde acusando Cheney de “distorções” e recorda os tempos de Cheney no Congresso, em que ele votou quase isolado em várias posições radicais (incluindo um voto contra uma resolução do Senado apelando à libertação de Nelson Mandela); o vice-presidente repete com desprezo na voz que o currículo de Edwards no Senado “não é um currículo muito distinto”

A moderadora segue em frente, lamentando “não falámos muito de Israel”; Edwards interrompe, “eu falei de Israel! Ele é que não!” Está a ser um debate MUITO tenso.

Debate dos vices — Halliburton 

Edwards menciona a Halliburton, e volta à carga. “Eles pagaram milhões de dólares” em multas por práticas “semelhantes às da Enron”, e negociaram com países como o Irão ou a Líbia. Cheney diz que precisa de “mais de 30 segundos” para responder (não lhos dão), mas recomenda o site factcheck.com como um bom ponto de partida para apurar a verdade sobre a “cortina de fumo“ que os democratas tentam levantar sobre a Halliburton (Cheney era director da empresa antes de ser vice-presidente).

Debate dos vices 

Cheney, tal como Bush, ataca repetidamente Kerry e Edwards como indecisos e dependentes dos ventos políticos sobre o Iraque. Zanga-se e dá sinais de exasperação, numa das respostas começa: “Por onde começar, tantas coisas erradas [que Edwards disse]”.

Edwards fala em treinar as forças de segurança iraquianas fora do Iraque, e em “fazer tudo o necessário” para garantir a realização de eleições; recorda o exemplo de Timor Leste para referir a necessidade de participação da ONU.

Cheney censura o adversário também por “desprezar o sacrifício” dos iraquianos ao não os contar entre as baixas de combate.

Debate dos vices 

“Para a América fazer o que tem feito nos últimos 50 anos”, diz Edwards, é crucial “ter credibilidade” junto das outras nações do mundo. O senador da Carolina do Norte, como havia feito Kerry, recorda o custo humano e financeiro da guerra. E repete insistentemente que “não vamos dar poder de veto a nenhum outro país” sobre a segurança dos EUA.

Cheney responde dizendo que “os seus factos estão errados”, e acusando Edwards de minimizar o contributo dos aliados dos EUA. Acusa também Edwards e Kerry de inconsistência e reviravoltas constantes sobre a guerra.

Debate dos vices 

O debate continua por questões de política externa; o Afeganistão, Bin Laden, o Irão. Está a ser um debate tenso, ao contrário de há quatro anos, em que Joe Lieberman e Cheney se trataram com imensa cordialidade.

Debate dos vices 

“Não há ligação entre o 11 de Setembro” e o regime de Saddam, “ponto final” diz Edwards, novamente dirigindo-se directamente a Cheney.

O democrata diz que teria dado mais tempo aos inspectores, e que “não desviaria” a sua atenção do alvo principal — Osama bin Laden.

Edwards parece um pouco nervoso — enganou-se nas suas palavras um par de vezes.

Cheney nega ter dito que havia relações entre o Iraque e o 11 de Setembro, e acusa Kerry e Edwards de “uma visão limitada de como proteger a América”, e lança-se ao ataque contra Kerry por “estar sempre do lado errado em questões de defesa”.

Debate dos vices 

Cheney diz que o Iraque tem de ser compreendido “no âmbito geral da guerra contra o terrorismo”, e cita laços de Saddam Hussein ao terror, falando de Abu Nidal e de um “nexo possível” entre o Iraque e a proliferação de armas de destruição maciça.

“Fizemos o que estava certo” no Iraque, garante Cheney.

Edwards viola regras — dirige-se directamente a Cheney, diz-lhe, “senhor vice-presidente, não está a ser sincero com o povo americano”. A Administração Bush “não tinha um plano para ganhar a paz”, afirma o democrata.

Debate dos vices - regras 

A moderadora explica as regras — semelhantes à do primeiro debate entre Kerry e Bush, candidatos não podem entrar em diálogo, limite de dois minutos por resposta, etc.

Debate dos vices — tudo a postos 

Os dois candidatos já estão instalados, e à espera das nova da noite exactas; estão sentados na mesma mesa, virados para a moderadora, Gwen Yffils.

O formato favorece Cheney; mau orador em campanha, está mais à vontade no cenário calmo escolhido para este debate. Edwards, com um estilo mais emotivo, terá de provar a sua capacidade no formato da “mesa redonda”.

5.10.04

A vez dos vices 

Dick Cheney e John Edwards encontram-se esta noite para o único debate televisivo entre os candidatos a vice-presidente. O debate pode ser seguido em directo neste site, para quem ainda esteja acordado às nove da noite em Nova Iorque (duas da manhã em Portugal).

Este blog seguirá o debate, desta vez num local com acesso à Internet, e conta ter apontamentos sobre a evolução da conversa entre Cheney e Edwards. Em nome do profissionalismo, o que este blog não fará é participar neste jogo.

4.10.04

Os árabes da Florida 

…não vão votar Bush. Pelo menos é isso que se deduz de um artigo no “LA Times” que fala dos esforços dos democratas de tentar cativar esta comunidade (de dimensões reduzidas — mas qualquer comunidade é importante, tendo em conta que há quatro anos as eleições na Florida se decidiram por 527 votos).

Kerry não precisa que lhe tratem da saúde 

John Kerry garante que a sua saúde não deve ser uma preocupação para o eleitorado americano. Apesar de um problema de cancro da próstata há dois anos, Kerry garantiu numa entrevista ao “New York Times” que está em boas condições físicas para o cargo.

O candidato democrata, de resto, gosta de chamar a atenção para o seu estilo de vida activo — faz-se fotografar frequentemente a andar de bicicleta, moto (tem uma Harley Davidson, que substituiu uma europeia e portanto menos patriótica Ducati), ou a fazer “windsurf”.

Dos leitores: edição enciclopédica III, comícios “pimba”, Hollywood e Nader 

“Round” final das questões do incansável Artur Furtado:

“A que artifícios, se algum, recorrem as campanhas para atrair gente para os comícios? Há concertos pimba depois dos discursos políticos ou romarias organizadas pelas delegações locais dos partidos? Esse é um indicador da vontade de participação política dos americanos?”

Começando pela última pergunta: não. A participação em comícios é relativamente pequena para padrões portugueses. Um comício típico tem poucas centenas de pessoas. Normalmente são os “fiéis entre os fiéis”.

O país é muito grande; não é possível para um candidato à presidência correr todas feiras e mercados, beijar todas as peixeiras e todas as criancinhas; os comícios são “photo ops”, concebidos para os “media”.

Com excepção da primeira fase das primárias, nos estados pouco populosos do New Hampshire e do Iowa (onde os candidatos têm realmente de beijar todos os bebés e visitar todas as feiras), a “política a retalho” não tem expressão nos EUA.

Não é complicado às campanhas atrair gente para os comícios; as multidões que aparecem são normalmente compostas pelos elementos mais politizados. Quem vai aos comícios já tem uma ligação tão forte às campanhas que não é preciso levar bandas “pimba” — embora seja normal levar “entertainers” para animar as hostes antes ou depois de o candidato falar.

O único receio é que apareçam “hecklers” — elementos que queiram propositadamente perturbar os comícios. Por causa disso, os comícios de Bush normalmente têm regras muito definidas sobre quem pode lá aparecer; alguns eventos são só por convite.

“Mas afinal Nader concorre ou apenas vê o nome aparecer nos boletins de voto da Florida?’ E que história está por detrás da sua antipatia, se assim se pode dizer, com Kerry, que o leva ao ponto de prejudicar a sua candidatura contra Bush (que teve/tem uma agenda ambiental muito mais débil)?”

Nader concorre. E vai estar nos boletins da Florida, onde aliás está a fazer campanha.

Aliás, mesmo nos estados onde o seu nome não aparece nos boletins de voto — por enquanto, só no Oklahoma é que está garantido que isso acontecerá — há sempre o método muito americano do “write-in”; qualquer eleitor pode escrever o nome de qualquer cidadão americano que lhe apeteça.

E porque é que Nader concorre? Mas ele não percebe que só está a ajudar Bush? Muitos democratas fazem-se estas perguntas.

Nader recusa-se a definir a sua candidatura como a de um “desmancha-prazeres”. Ele diz que é seu direito democrático candidatar-se; argumenta também que a escolha entre dois “males menores” não é suficiente.

Menos persuasivo é o seu argumento de que a sua candidatura irá roubar votos tanto aos republicanos como aos democratas.

Nader, que desde que lançou a sua candidatura tem estado a defender-se dos apelos a que desista, tem mais razões para estar na corrida. Ele diz que as diferenças entre democratas e republicanos não são suficientes e que as suas ideias não serão defendidas nem por Bush nem por Kerry.

A questão da agenda ambiental é avançada repetidamente — mas as preocupações de Nader não são todas ecológicas (em 2000 ele era o candidato “verde”, mas este ano concorre como independente), mas também económicas e socio-políticas.

Uma boa maneira de aferir porque é que Nader não cede e continua na corrida é ler a sua a análise ao primeiro debate televisivo entre Bush e Kerry: Nader claramente tem mais simpatia pelo democrata, mas sente que Kerry não responde às suas aspirações e que o único candidato capaz de o fazer é, bem, ele próprio.

E assim se conclui a maratona de perguntas e comentários de Artur Furtado; obrigado novamente ao leitor, que tinha enviado ainda mais questões, algumas delas contudo repetidas.

Por exemplo, Furtado interrogava-se também sobre o mesmo assunto que Ricardo Clara, que é um dos administradores de um blog sobre cinema:

“A minha questão prende-se com a participação que os meios de cinema e especialmente de Hollywood (não tanto do cinema independente) têm tido neste processo. Fora os já conhecidos Michael Moore e o referenciado "Celsius 41.11" que recentemente surgiu, a minha dúvida prendia-se na participação das estrelas da 7ª Arte nestas eleições. Muito recentemente houve concertos anti-Bush, e a curiosidade tendia para o lado cinematográfico.”

Houve nos últimos meses uma “explosão” do cinema documental, na sua maioria com obras de pequeno orçamento e de teor fortemente anti-Bush.

Quanto a Hollywood, o clima político leva a tentar encontrar mensagens ideológicas em qualquer novo filme. “The Manchurian Candidate”, “remake” de um filme dos anos 60, tinha um conteúdo político óbvio.

Estreia este mês nos EUA uma sátira dos criadores da série South Park, “Team America”, que com marionetes promete disparar em todas as direcções do espectro político americano.

As estrelas de Hollywood envolveram-se mais directamente na fase das primárias democratas. Aí era comum ver-se o actor/realizador Rob Reiner (o genro “cabeça de abóbora” na “sitcom” “All in the Family”) ou o actor Martin Sheen (o “Presidente Bartlett” de “West Wing”) a fazer campanha por Howard Dean.

Mas só nessa fase é que os actores ou cineastas são realmente úteis — porque atraem atenção dos “media” para candidatos menos conhecidos. Neste ponto, o seu papel é marginal — o actor Ben Affleck andava em todo o lado na convenção democrata, mas a imprensa só lhe ligava nas colunas do “social”, porque nessa altura já a luta política tinha ascendido a outro nível.

Os americanos não ligam muito ao que lhe dizem as estrelas do cinema ou da música. Como outro leitor já havia notado, a América é obcecada pela vida privada de actores ou “rockers” — mas quando eles lhes dizem em quem votar, a sua influência é reduzida.

Há até uma atitude do “cala-te e canta” — uma ideia de que é indecoroso os artistas usarem os seus palcos para impor as suas ideias políticas. A atenção alcançada pela “tournée” anti-Bush Vote for Change tem acima de tudo a ver com a participação de Bruce Springsteen — um músico que nunca havia declarado apoio a nenhum candidato, e que é encarado como uma espécie de “reserva moral” da América.

Hollywood tem peso político de outras formas — afinal, um actor de série B foi Presidente entre 1981 e 1989, e outro é actualmente governador da Califórnia.

O grande papel de Hollywood é no entanto enquanto fonte de financiamento. E, deste ponto de vista, “Tinseltown” é uma cidade quase totalmente democrata.

Muitos cineastas, produtores e actores de Hollywood são doadores activos e generosos para causas e candidatos democratas; o realizador Steven Spielberg ajudou a produzir o documentário biográfico sobre Kerry exibido na convenção democrata, o produtor Steve Bing (o ex-“mr. Sharon Stone”) já gastou mais de oito milhões de dólares do seu bolso para financiar grupos anti-Bush.

Há um punhado de artistas pró-Bush — mas eles são “aves raras” em Hollywood. O desdém republicano pelo mundo do cinema é tal que George W. Bush usou Hollywood como palavra de código no seu discurso perante a convenção republicana para atacar a “dissolução moral” dos democratas.

De volta a Ralph Nader, com uma pergunta de Maria Ramos, que escreve a partir dos EUA:

“Eu não percebo o porquê de tanta [agitação] à volta dos debates?? A coisa parece-me mais ou menos banal em tempos de campanha!

O [Ralph] Nader não participa nos debates? Como é que se explica um candidato que não participa?”


Os debates são de facto um evento normal numas eleições democráticas — a agitação é porque eles são encarados como uma forma decisiva de os candidatos chegarem ao eleitorado.

Afinal, muitos eleitores, especialmente os mais indecisos, não seguem o noticiário político com grande atenção; os debates são para eles o primeiro contacto, e talvez o decisivo, para formar ideias sobre os candidatos.

Mas porque é que Nader não participa? Bem, os debates televisivos nos EUA são uma instituição voluntária; nem Kerry nem Bush são obrigados a participar.

Fazem-no por desejo de elucidar os eleitores sobre as suas posições. A parte logística está a cargo de uma organização indepedente — a comissão dos debates — que tem uma série de critérios para escolher quem convidar.

Entre estes critérios: os candidatos têm de estar nos boletins de voto num número suficiente de estados para que lhes seja matematicamente possível obter uma maioria de votos no “colégio eleitoral”. Nader, que lançou a sua candidatura tarde e está a ter problemas em alguns estados, poderia não cumprir este critério na altura em que os debates foram planeados.

Outro critério: um candidato tem de ter “um nível de apoio de pelo menos 15 por cento entre o eleitorado nacional, determinado através de cinco organizações nacionais de sondagens” para ser convidado.

Ora, nem o próprio Nader terá esperanças de atingir 5 por cento dos votos, quanto mais 15 por cento. Por isso, teremos este ano debates a dois (em 1980, 1992 e 1996, por exemplo, houve debates a três, com o independente John Anderson e o “reformista” Ross Perot).

Mas para quê estas regras todas? Se são só três candidatos, não se podia abrir uma excepção para Nader?

O problema é que não são só três candidatos. Há um número imenso de candidaturas à presidência dos EUA. A maior parte destes candidatos não tem qualquer implantação nacional, terá uma fracção ínfima dos votos e nem sequer aparecerá nos boletins na maior parte do país porque não tem apoios para recolher assinaturas suficientes — mas eles existem.

Uma lista não-exaustiva de candidatos “alternativos” e dos partidos que eles representam:

•Gene Admonson — Concerns of People Party (partido que quer reinstaurar a Proibição de consumo de bebidas alcoólicas)

•Michael Peroutka — Constitution Party (de direita, o comentador conservador Pat Buchanan manifestou recentemente a sua simpatia por Peroutka)

•David Cobb — Green Party (os “Verdes” não apoiam Nader este ano, e apresentam um californiano como o seu próprio candidato)

•Michael Badnarik — Libertarian Party (outro partido com alguma implantação nacional, embora sem expressão eleitoral)

•Leonard Peltier — Peace and Freedom Party of California

•Earl F. Dodge — Prohibition Party of Colorado (outro partido proibicionista)

•Walt Brown — Socialist Party (mesmo no tempo da “caça às bruxas” de McCarthy, este partido de inspiração comunista apresentou candidatos à presidência)

•Roger Calero — Socialist Workers Party

•John Parker — Workers World Party

•Robert DiGiulio — Children’s Party

•Jack Grimes — United Fascist Union

•Darren Karr — Party X

•Tom Wells — Family Value Party

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